segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Underserved communities no MoMA


Eduardo Cotrim
Small Scale Big Change: New Architectures of Social Engagement permanece no Museu de Arte Moderna de NY até fevereiro de 2011. A exposição visita onze projetos dirigidos às necessidades locais de algumas underserved communities, termo usado na apresentação do evento, que identifica bem o sujeito das proposições, vindas dos cinco continentes, expressas em exemplos construídos.
A exposição também resgata as histórias dos caminhos percorridos pelos autores para a implantação de cada uma das proposições. Essas informações estão disponíveis a qualquer momento. Seguem então, de um modo pragmático, os trabalhos apresentados, os arquitetos, as cidades de destino dos projetos e seus objetos:



Diébédo Francis Kéré, para Gando, Burkina Faso, escola primária – Primary School


Anna Heringer, para Rudrapur, Bangladesh, escola – Meti-Handmade School;


Hashim Sarkis, para Tyre, Líbano, moradias para pescadores – Housing for the Fishermen of Tyre;





Michael Maltzan Architecture, para Los Ângeles, California, USA, centro de ensino de artes – Inner-City Arts.






Alejandro Aravena – Elemental, para Iquique, Chile, habitações de 30m2 ampliáveis com custo unitário de US$ 7.500,00 – Quinta Monroy Housing;






Frédéric Druot, Anne Lacaton e Jean Philippr Vassal para Paris, França – Intervenção em edifício alto da década de 60/70 - Transformation of Tour Bois-le-Prêtre;









Jorge Mario Jáuregui – Metrópolis Projetos Urbanos, para Rio de Janeiro, Brasil – Intervenção urbana no complexo de Manguinhos – Manguinnhos Complex;





Noero Wolff Architects, para Port Elizabeth, África do Sul, museu da história do Apartheid – Red Location Museum of Struggle;



Rural Studio – Auburn University, para Newber, Alabama, USA, centro de pesquisa e treinamento para aplicação em projetos habitacionais de baixo custo - $ 20 K - House VIII.




Estudio Teddy Cruz, para San Ysidro, Califórnia, USA implantacão de novas habitações, com programa de assistência às crianças em bairro alta densidade – Casa Familiar / Living Rooms at the Border and Senior Housing with Childcare ;


Urban-Think Tank, para Caracas, Venezuela. Sistema de transporte por cabos em comunidade carente - Metro Cable.


É verdade, aqui e lá fora, que o mundo está hoje mais observador e sensível aos resultados da intervenção do arquiteto - nos territórios destituídos de quaisquer possibilidades de desenvolvimento social, sobretudo, mas também naqueles desenvolvidos, que possuem lá suas lacunas. Sinal de que a Arquitetura passa a competir com a redação das políticas públicas? Fica a pergunta, mas há um fato: no século XXI, os recursos e as vontades políticas têm resultado cada vez mais de projetos, de desenhos. Assim pode ser interpretada a lição do MoMA.

Fotos de Eduardo Cotrim, 10/10/2010.


sábado, 16 de outubro de 2010

Morar Carioca

*Artigo publicado originalmente no jornal O Globo de 15/10/2010
Eduardo Paes e Sérgio Magalhães
Em julho lançamos uma meta: todas as favelas do Rio urbanizadas até 2020 através do programa Morar Carioca.Trata-se de um objetivo ousado que se compõe ao legado social dos grandes eventos que a cidade sediará, como a Olimpíada de 2016.
Um dos primeiros passos desse projeto está sendo dado agora com o lançamento do concurso público, promovido pelo Instituto de Arquitetos do Brasil-RJ, com o objetivo de selecionar as equipes que elaborarão os projetos de urbanização de 260 das 378 favelas integrantes do programa.
No âmbito do Morar Carioca, urbanizar é tornar cidade.
A história do Rio, há mais de cem anos, é indissociável das favelas. No começo, foram consideradas efêmeras, que o desenvolvimento do país equacionaria. Lei de 1937 proibiu que o mapa da cidade incluísse suas favelas.
Quando ultrapassavam as centenas, passou-se à política de remoção compulsória. A reação social a inviabilizou. Não sem antes produzir grandes guetos localizados nas fraldas da cidade e que, após quarenta anos, ainda são lugares isolados e de muita pobreza.
A revisão política dos anos 1980 reconheceu as favelas como realidade social e urbanística. Implantaram-se as primeiras redes sanitárias.
Em meados da década de 90, a partir de uma revisão doutrinária, a prefeitura do Rio inicia o programa Favela-Bairro, com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento e da Caixa Econômica Federal.
O Morar Carioca aproveita as diversas experiências das últimas décadas, seus erros, acertos e desvios de rumo, buscando ampliá-las, no objetivo da superação plena desse enorme desafio de integração social e urbanística.
O convênio da prefeitura com o IAB-RJ também prevê promover a reflexão sobre essa experiência. Desde que o Favela-Bairro começou, as condições e exigências por certo se modificaram. Por exemplo, a disponibilidade de financiamento para construção de moradia popular não era tão ampla como agora. Na perspectiva de 2020, como proceder para que as favelas cheguem lá plenamente inseridas na cidade?
Refletir sobre a experiência, medir vitórias e derrotas, compreender as circunstâncias, tudo isso poderá resultar em revisão dos parâmetros a serem atendidos por projetos e obras.
Quais as novas exigências quanto ao sistema viário? Quanto às redes públicas? O que especificar para conservação e manutenção econômicas? Quais equipamentos sociais necessários? Onde localizá-los?
A reflexão por certo incluirá o tema das moradias precárias e do adensamento exagerado, onde há danos sanitários e ambientais. Melhorar a casa, com assistência e crédito, há de ser uma demanda importante nos próximos anos.
O desadensamento implicará a construção de novas moradias. Aproveitar vazios urbanos e edificações ociosas, como há na Zona Norte suburbana, é caminho possível. Integrar as favelas à cidade é também ampliar a cidade às favelas. Ampliar através de serviços públicos necessários à vida urbana de hoje.
Isso significa novos custos financeiros para a administração pública.Novos custos a serem cotejados aos prejuízos sociais, ambientais, econômicos e políticos hoje existentes.
Assim, a sustentabilidade dos investimentos estará suportada justamente na presença permanente dos serviços públicos na cidade ampliada. Todos eles, inclusive o de controle urbanístico e o de segurança pública. Logo, na garantia de não expansão da ocupação e da plena recuperação dos territórios para a legalidade.
Essa garantia talvez seja o maior dos desafios da cidade, que o Rio seguramente saberá enfrentar, de modo que, a partir de 2020, possa percorrer o século 21 no caminho da democratização social.

Veja também:
Prefeitura e IAB lançam concurso que vai selecionar projetos de urbanização das favelas do Rio

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O economista americano Paul Romer concedeu uma polêmica entrevista para Leandra Peres e o jornal Valor defendendo a criação de cidades onde "tudo funcionaria na direção do desenvolvimento - sob governo estrangeiro".

E foi para ela, a convite do Cidade Inteira, que o nosso colega arquiteto e urbanista Manoel Ribeiro escreveu as seguintes considerações.

Sai do armário, Romer!
Manoel Ribeiro*
Especialmente para o CI
Lendo a entrevista encaminhada pelo Sérgio e aceitando o seu desafio, encaminho algumas considerações.

Em primeiro lugar, Romer ignora o conceito clássico de soberania:

“Soberania relaciona-se a poder, autoridade suprema, independência (geralmente do Estado). É o direito exclusivo de uma autoridade suprema sobre uma área geográfica, grupo de pessoas, ou o self de um indivíduo. Soberania é o domínio sobre um território. Inclusive no que toca à gestão. Conceder autorização para instalações militares, exploração de recursos naturais, patentear a biodiversidade, exercer o poder de polícia etc, estariam entre essas atribuições."


Delegar a administração de uma cidade a outro Estado ou empresa significa abrir mão da soberania. A contratação de empresas para cuidar da aduana, como ele exemplifica, reproduz o que aconteceu no nosso País, após a independência, quando a dívida portuguesa com a casa Rotchild londrina, foi repassada ao Brasil. Nossa alfândega era controlada por um funcionário do Banco Rotchild que apropriava 20% da receita do movimento comercial, para abater a tal dívida.


No correr da entrevista, a recorrência de exemplos sobre o Haiti revela as mesmas intenções que a presença maciça de “mariners” naquele país, que teve aceitação “voluntária” do governo nacional na fragilíssima situação pós terremoto.


Para o Haiti, ter uma cidade que se transforme no "hub" de toda uma região é um absurdo, já que uma cidade desse porte num país como o Haiti, drenaria toda a energia e os recursos nacionais (e dos países vizinhos) para um só ponto do seu território. Seria um pais de uma só cidade central, provavelmente cercada de favelas “fuori muri”. A pergunta que se faz é como viveriam essas populações excedentes desse “édem” econômico e financeiro.


Quando Romer reconhece que o Haiti talvez não tenha uma democracia consolidada mas que o Brasil, com sua presença, poderia garantir um controle democrático efetivo na cidade proposta, fixando a "meta de inflação" e tomando decisões sobre a taxa de juros, ele esquece que o mercado financeiro não vem demonstrando competência para se administrar, exigindo dos estados nacionais vultosos aportes de recursos para cobrir seus erros. Como se pode propor a “financeirisação” da administração de uma cidade em território soberano? A privatização dos lucros e a socialização dos prejuízos não pode prevalecer em sociedades democráticas.


Mas o clímax da cara de pau ocorre quando afirma que a ausência do voto livre não impediria as pessoas de ir para essa nova cidade. Nesse ponto Romer “saiu do armário”. O que ele quer dizer? A decisão de migrar para esse ou aquele país não a transforma numa maneira democrática e socialmente justa de viver. Talvez essa decisão revele apenas a iniqüidade de outros locais de onde esses contingentes populacionais estão fugindo.


Fã da prática chinesa de controle da “crimilalidade”, Romer ainda se supera, quando propõe que o Brasil assuma a iniciativa de criar e administrar uma dessas cidades internacionalizadas no Haiti. Caso essa idéia maluca se concretizasse, como poderíamos nos opor a idêntica proposta na Amazônia, retirando-nos todo o controle sobre a rica bio-diversidade da região?

Concluindo, o conceito de desenvolvimento utilizado por Romer é arcaico e ultrapassado. O PIB não representa uma garantia de bem estar de uma população e apenas mede o volume das transações comerciais. Crer que todos os países percorrerão o mesmo caminho na direção de melhores condições de vida para todos não é só equivocado, mas sobretudo enganador e perverso.

Estou desconfiado que esse tal de Romer, por suas posturas aéticas e falaciosas é o popular patriarca da família Simpson.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Novas velhas cidades

Sérgio Magalhães
Tinha um velho sonho de conhecer São Luiz do Maranhão, onde, dizem, fala-se o melhor português do Brasil. Seu centro histórico e seus casarões com azulejos, objeto de magnífico estudo de Dora Alcântara. Onde John Gisiger trabalhou pela preservação com desenvolvimento e conseguiu desenhar o primeiro Plano Diretor, ainda nos anos oitenta.

Mas São Luiz resolveu aderir ao velho modelo do abandono das preexistências e da valorização da novidade (da velha novidade, diga-se). O centro perde centralidades aceleradamente. As áreas novas, ocupadas a partir dos oitenta, detem os principais investimentos públicos. Como ocorre em quase todas as expansões por este Brasil afora, o protagonismo é de edifícios residenciais altos, isolados, voltados a si mesmos, fechados para a rua, que é apenas um canal para o trânsito motorizado. Avenidas, ruas e vielas construídas para o transito, apenas para o fluxo de veículos. Longa expansão em baixíssima densidade, sem chance para uma ambiência de uso coletivo.

Nada a ver com a São Luiz que fará quatrocentos anos em 2012.
Perguntei ao taxista: lá onde moram os pobres também estão sendo construídas tantas avenidas?
- Lá, não. Porque as praias estão para o lado de cá. E é onde moram os que tem renda mais alta.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O Centro e seus Vazios (II)

Eduardo Cotrim
Num dado momento, vingou a idéia no Brasil de se suplantarem os centros das cidades, que têm lá suas más e boas histórias, por outros que norteariam outros significados, desde que fossem apenas os bons passados e os melhores futuros. Ficaram para os Centros um certo pretérito descalço e uma espécie de desorientação.

É possível que daqui a dez mil anos, arquiteturas coloniais e republicanas no Brasil sejam coisas idênticas, como para Millôr, em um milhão de anos não se distinguirá mais pré-história do século XXI. Bom, o certo é que tudo é dinâmico; que a história não é necessariamente uma, mas fiquemos na escala provisória de tempo da cidade que se enxerga, pois cabe aos próximos enxergarem as suas, como fizeram os antigos.

São Paulo, maior município brasileiro e o 6º do planeta, o Non ducor, duco, conduz, com sacrifício seu Centro, como o maior problema. Curral del Rei, em Minas, vê violência em seu núcleo, que em 1930 deixava de ser uma teoria urbanística para ser uma conquista humana. Morada do Sol, Araraquara, que não é capital nem nada, teve seus únicos dois únicos cinemas do Centro, Capri e Veneza, transformados em igrejas de testemunhas de qualquer coisa, que na década de 70 passavam de Oliver Twist a Sétimo Selo. Não falemos de Salvador, de Florianópolis ou de Rio Branco, mas perguntemos: para onde foram os Centros e o que fazer com eles, memórias de nossas boas e más histórias?

sábado, 2 de outubro de 2010

Há um ano...

André Luiz Pinto


Hoje está fazendo um ano que o Comitê Olímpico Internacional anunciou o Rio de Janeiro como cidade-sede dos Jogos da XXXI Olimpíada em 2016.
De lá para cá muito se discutiu aqui no Cidade Inteira, nos meios de comunicação em geral, nas universidades, nas diversas instituições interessadas e em cada canto desta Cidade Maravilhosa.
Muito foi conquistado, mas ainda faltam 6 anos para o evento e a cidade do Rio ainda pode caminhar muito mais. Pode por exemplo, aprender a lição com Londres, que promove uma aula de organização, de visão de futuro, e de respeito aos recursos financeiros coletivos.
Vamos comemorar o aniversário da escolha olímpica atuando ainda mais de forma crítica e construtiva para que possamos ter uma cidade mais democrática e renovada não só para o evento, mas para o dia a dia de todos os cariocas.
Viva o Rio!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Vamos devagar, quase parando...

Lucas Franco
Ainda em 2009, a ONG Rio Como Vamos, responsável pelo monitoramento da gestão municipal do Rio de Janeiro, publicou uma interessante pesquisa sobre transportes e o cotidiano dos cariocas.
O resultado infelizmente é o seguinte: despendemos em média quase uma hora e meia no percurso diário casa-trabalho.
Os motivos também são reconhecidos:
- É um círculo vicioso, alimentado sobretudo pela histórica falta de racionalização do transporte público. Nunca tivemos um sistema eficiente e integrado, o que resultou na proliferação do transporte irregular e na má prestação de serviços. Com isso, muita gente opta pelo carro particular, um conforto irreal, porque piora os engarrafamentos – destacou a presidente executiva do RCV, Rosiska Darcy de Oliveira em uma matéria publicada nesta semana no jornal O Globo.
É lamentável ou simplesmente lógico, que o meio mais utilizado, os ônibus comuns com 47% das respostas, também lidere o índice de reclamações.
Segundo a pesquisa, o metrô responde apenas pelo transporte de 3% dos cariocas.
Os trens, pasmem, 1% do todo.
A matéria do Globo ainda transmite esperanças de melhorias às recentes propostas dos corredores de BRTs.
Ok, parece que estamos avançando. Mas desculpem-me pelo ceticismo e ainda mais pelo trocadilho, mas pelo visto, no Rio ainda vamos mal, devagar quase parando.

Leia a primeira e a segunda parte matéria citada no Globo Online.
Leia o original

domingo, 26 de setembro de 2010

Excelente sinal

Sérgio Magalhães
Mais do que uma boa notícia, o artigo assinado por Felipe Góes e Washington Fajardo traz um sinal positivo para o desdobramento das atividades olímpicas programadas para a cidade.

Felipe é secretário de Desenvolvimento do Rio, presidente do Instituto Pereira Passos, e responsável pelo projeto Porto Maravilha; Washington, é subsecretário de Patrimônio e Arquitetura, da secretaria de Cultura. Logo, o artigo pode ser lido também como um indicador importante para a sociedade e para empreendedores.

É mais um passo para a readequação do projeto olímpico à construção de um legado de maior expressão para a cidade.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O Centro e os seus vazios

Eduardo Cotrim
Os centros são imparciais porque não disputam preferências com outras regiões do cosmos, das figuras geométricas, de gravidades ou dos poderes democráticos constituídos. Também, no mundo todo, aparentemente, todas as regiões das cidades se destacam dos seus centros, que são indiferentes, meio mudos, mas acima de tudo coletivos e unâmines. O que as regiões gritam, os centros agregam.

Tijuca do Rio, Guillermerie de Toulouse, Kralingem de Rotterdam, Oued Kouriche de Argel possuem muitos sons, vitalidades, vaidades, mas não possuem ruas tão públicas e anônimas ao mesmo tempo, como a do Ouvidor, a du Tour, a Gouvenestraat ou a Rabah Rajah, que deve ser fascinante conhecer. As regiões ou os bairros, é verdade, são tão fundamentais quanto os centros, porque naqueles vivem os cidadãos.



No Rio, chamamos, ou chamavam nossos pais e avós, o centro de Cidade. Vou ou vamos à Cidade. De dia, isso significava resolução de papeladas, de noite, diversão. Durante o dia e à noite, a cidade no Rio era o Centro. Entre uma e outra papelada, havia bancos nas praças na hora do almoço e de noite havia luzes.

Praças e luzes. Parecem uma boa retomada para a Cidade, para o centro do Rio.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O Rio se reencontra

*Artigo publicado originalmente no jornal O Globo de 19/09/2010.
Sérgio Magalhães
Depois de quarenta anos de hegemonia do modelo de dispersão territorial e de valorização de centralidades novas a oeste, poderemos ter um outro polo a reorientar a direção do desenvolvimento urbano: o Centro do Rio. Sim, o velho Centro, lugar histórico, lugar político, a fonte da cidade. Os grandes eventos programados para os próximos anos poderão significar o reencontro da cidade com o seu Centro.

São muitos os embates que o Centro tem enfrentado. A ele se opõe, há décadas, a expansão em baixa densidade demográfica. O censo de 2010 daqui a poucas semanas confirmará o pouco crescimento da população do município, praticamente estável. Não obstante, se o censo também medisse a ocupação territorial, veríamos que a cidade se expandiu desproporcionalmente. É um espraiamento predatório, porque implica gastos ambientais, sociais e econômicos insustentáveis.
Ao Centro também se opôs, desde os anos 60, a ideia modernista de que a cidade precisava ser outra, que seria desejável promover-se uma nova centralidade metropolitana nos terrenos ociosos de Sernambetiba, onde se estabeleceu uma nova hegemonia imobiliária, e para onde, quiçá, se transferiria a capital do estado. Isto é, depois de deixar de ser capital federal, o velho Rio também perderia a condição de capital estadual...
Ainda durante a hegemonia funcionalista, pretendeu-se que o Centro do Rio não poderia abrigar moradias —e lei proibiu aí novas habitações, sem considerar que a vitalidade dos tecidos centrais se dá também pelaocupação diuturna.
Nesse verdadeiro turbilhão, se consolida a praia como referência urbana, disputando com o Centro o lugarprivilegiado do convívio e da bem-aventurança.
E, ainda nos anos 60, com a desestruturação dos transportes sobre trilhos (trens e bondes), em benefício de ônibus e automóveis, e com a abstenção de políticas metropolitanas, dificulta-se o acesso ao seu núcleo. A condição de melhor acesso, um dos primeiros atributos dos centros urbanos, se enfraquece.
Assim que políticas de preservação ambiental e patrimonial, embora fundamentais, não logram reverter as perdas estruturais. O Centro do Rio, que já fora a principal centralidade nacional na representação política, social e financeira, pareceria estar condenado a ser um bairro qualquer — não fosse a sua derrota a própria ruína da cidade.
Se admitirmos que uma grande cidade, uma metrópole, precisa de um ambiente público que sintetize a identidade coletiva, que seja representativo das suas memórias e da sua história, que esse espaço seja indispensável para a coesão social, e que ele não seja meramente simbólico mas que seja permanentemente vivenciado e fortalecido no enriquecimento cotidiano do seu uso, então o nosso Centro precisa ser cuidado e sua vitalidade precisa ser fortalecida.
É o Centro que nos dá essa resposta — e nenhum outro espaço, por mais privilegiado e bonito que possa ser —, porque é nele que se encontra o núcleo metropolitano, as melhores estruturas urbanas, os focos urbanos mais relevantes da história do país, o repertório arquitetônico mais rico e diversificado construído em quatro séculos, o maior patrimônio cultural brasileiro.
É nesse entendimento que, após um ano da vitória do Rio como sede olímpica, se vislumbram novas condições para a cidade. Os grandes eventos têm esse papel crucial: podem ser capazes de potencializar esforços e recompor realidades.
Nós continuamos a investir exageradamente na expansão, é verdade. Precisamos ter cuidado em não deixar prosperar novas ocupações junto ao Arco Metropolitano, bem como precisamos preservar a Baixada de Guaratiba, evitando que a Transoeste seja um vetor predador.
Contudo, temos a comemorar, neste um ano, um novo fator potencialmente redirecionador do desenvolvimento urbano, que é o aproveitamento da área portuária.
Há poucos dias, o prefeito do Rio anunciou concurso público de arquitetura e urbanismo para escolha de projetos que contemplem parte dos equipamentos olímpicos a serem construídos na região, inclusive instalações destinadas à mídia. Tornar-se a área portuária em Porto Olímpico é um passo essencial, político e simbólico, para o redirecionamento do desenvolvimento.
Com a Copa de 2014, a ser realizada no Maracanã, e há um ano da vitória do Rio como sede dos Jogos de2016, é uma decisão estratégica de reorientação de investimentos. É uma garantia para o projeto Porto Maravilha como uma realidade transformadora.
Depois de quarenta anos de hegemonia do modelo de dispersão territorial e de valorização a oeste, teremos um contraponto estratégico, outro polo a orientar o desenvolvimento. Ou seja, retornando às origens da cidade o dom de amalgamar a cidade metropolitana em torno de sua sede histórica.
A expansão desmedida passará a ter um contraponto. É o Rio que se reencontra.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Patrimônio carioca

Lucas Franco
Na última semana, dois artigos publicados no Globo alertavam para o rumo que as mais novas intervenções na cidade do Rio de Janeiro estão tomando dentro dos preparativos para a Copa de 14 e os JJOO de 16.
“Como se não houvesse amanhã” da paisagista Cecília Herzog e “Maracanã, corra para vê-lo” do arquiteto Alfredo Britto nos chamam a atenção para o que há de mais importante no trato do ambiente, natural e construído, respectivamente.
Leia os artigos:
Os autores criticam a falta de transparência dos processos administrativos, do atropelo à legislação, o modelo do “se fazer a qualquer custo”, e nestes casos especialmente, a impressionante falta de sensibilidade com o valioso patrimônio carioca, seja ele natural, paisagístico, cultural ou arquitetônico.

“(...) Quando os recursos financeiros jorram, os estragos podem ser incalculáveis. Falta visão holística, de conjunto, e de um planejamento sistêmico que seja rebatido no território, na paisagem, baseado em suas especificidades. Considerar a cultura local, e sua diversidade, é essencial para que não nos tornemos uma cidade “global” homogênea, “genérica” como tantas outras, sem identidade. Cidade composta de edifícios sem alma, sem contato com a realidade ambiental, social e cultural do lugar. Assistimos à eliminação iminente do que resta do patrimônio paisagístico e cultural, reconhecido mundialmente, e que certamente contribuiu para que fosse a cidade escolhida dessa década para tantos eventos internacionais. (...)”
*Cecília Herzog em "Como se não houvesse amanhã".

“(...) Mas, alguém viu o projeto de modificação do Maracanã? Não. Permanece um mistério. Em todos os sites disponíveis só fotos externas e distantes do “novo” Maracanã. Pode-se observarem uma delas uma sobrecobertura; mera ilustração, nenhuma viabilidade estrutural a sustenta. A Secretaria de Estado de Obras/Emop realizou uma audiência pública referente à licitação para “Obras e readequação do Estádio Jornalista Mário Filho (Maracanã) ao Caderno de Encargos da Fifa para a Copa do Mundo de 2014”. Era uma oportunidade para conhecê-lo. Presentes muitos empreiteiros, advogados, proprietários de cativas. Muitos questionamentos sobre prazos, custos, adequações patrimoniais. Nada sobre seu aspecto final, sobre seu projeto, seus valores como patrimônio cultural da nação, um ícone da cidade. Nenhuma imagem ou desenho (projeto) foi mostrado nessa audiência. E ninguém se preocupou com tal detalhe irrelevante (...).”
*Alfredo Britto em “Maracanã, corra para vê-lo”.


Veja aqui algumas imagens do projeto de reforma do Maracanã, divulgadas pela EMOP dias após a publicação do artigo de Britto.

domingo, 12 de setembro de 2010

Marcos Boldarini e o modernismo

Sérgio Magalhães

Gostei muito das observações do arquiteto Marcos Boldarini, expostas como comentário na nota “Como é dificil entender a arquitetura”, postada pouco mais aí abaixo. Deixo de comentar o comentário lá na nota, e o faço aqui, para que se dê um pouco mais de destaque ao assunto.


A opinião de MB faz nexo com seu trabalho em favelas de São Paulo.


Não obstante, de certo modo, confirma minha impressão de haver uma certa “patrulha modernista”, quando o arquiteto informa sobre a pauta da entrevistadora, retomada a cada pergunta:


“O que você entendeu como patrulha modernista era na verdade a linha da pauta da entrevistadora. A relação da nossa arquitetura com a herança modernista era retomada em cada pergunta.”


A patrulha deixa de ser uma abstração, um elemento etéreo e autônomo, e se materializa em um determinado contexto epistemológico de algum modo ainda surpreendido pela não ortodoxia modernista.


Também concordo com Boldarini: como seria salutar se o tema pudesse interessar mais gente –e entrasse no debate.

O CidadeInteira está às ordens.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Polêmica

Lucas Franco
A polêmica causada pelo lançamento da concorrência para o projeto do Parque Olímpico do Rio parece que caminha para um final feliz.
No último dia 19, o CO-Rio 2016 publicou um edital de licitação para escolher o escritório que complementaria os estudos arquitetônicos já desenvolvidos, servindo de base para a licitação de obras e a contratação dos projetos executivos. Até aí tudo bem, não fossem as regras adotadas e a maneira como tudo aconteceu.
O edital divulgado somente pelo website do CO-Rio, publicado em 19 de agosto, concedia apenas 12 dias para as empresas se habilitarem. Da mesma forma, os prazos e valores estipulados para o desenvolvimento dos trabalhos revelavam-se incompatíveis com a magnitude do projeto.
As principais entidades representativas dos arquitetos e urbanistas, como o IAB, CREA e SARJ, especialistas e importantes veículos de comunicação protestaram e pressionado até pela prefeitura do Rio, o CO-Rio voltou atrás e decidiu reformular a licitação.
A defesa do bom planejamento, do melhor direcionamento dos investimentos, da construção de um legado urbano e do resgate e promoção da nossa arquitetura e identidade, certamente são valores importantes, fundamentais para o desenvolvimento da nossa cidade, e que certamente deverão ser sempre buscados.
Coerência, transparência e responsabilidade no processo, são o mínimo. E precisam ser exigidas.

Veja as notícias e reportagens relacionadas ao tema:
RJTV: Comitê Rio 2016 cancela licitação para construção de parque olímpico em Jacarepaguá

O Globo:
FSP:

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Deconstrutivimo e Mobilidade

Sérgio Magalhães
Recomendo duas excelentes matérias, aparentemente desconexas entre si.
Flavio Ferreira escreve sobre Arquitetura e o Deconstrutivismo.
Raquel Ronilk fala sobre a mobilidade em São Paulo.

FF relaciona importantes mudanças históricas na arquitetura ao advento de novas mídias de comunicação visual. No caso, o deconstrutivismo é associado ao advento do computador e da internet.
RR considera indispensável que nossas cidades comecem a "crescer para dentro", ocupando os vazios e adensando.

Ambos, tratam da arquitetura contemporânea (e, logo, da cidade contemporânea) à luz da revisão doutrinária experimentada nas últimas décadas, na qual o reconhecimento das preexistencias é um dos pilares fundamentais.

FLAVIO FERREIRA: Com a ajuda de Victor Hugo: o Deconstrutivismo e seus precedentes
RAQUEL ROLNIK: Entrevista em vídeo sobre mobilidade urbana e habitação para o "Isso não é normal"

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Memória?

Sérgio Magalhães
Se nos perguntarmos sobre o desmatamento dos morros da cidade, nossa resposta será de desolação.
Agora, temos a oportunidade de testar nossa memória com imagens de três morros da zona Sul, esta que sempre é percebida como a em franco processo de devastação.Na mídia, também, a memória é reforçada pela informação que as favelas crescem e desmatam nossas encostas.

Vale a pena conferir.Mas, para facilitar, vamos colocar já cada imagem lado a lado.À esquerda, antes; à direita, depois.

Morro do Sumaré, Rio Comprido
Morro da Babilônia, Urca/Leme
Morro Dois Irmãos, Leblon
Aos que quiserem imagens com maior definição, seguem os links.

sábado, 4 de setembro de 2010

Conexões

Lucas Franco
Na semana passada, uma parceria formada pelo IAB-RJ, o Ministério da Ciência e Tecnologia e a embaixada da Suíça, promoveu um simpósio para se discutir os desafios a serem enfrentados durante a qualificação urbana das cidades, especialmente a do Rio de Janeiro, considerando os grandes eventos esportivos programados para os próximos anos.
Em pauta, a política de investimentos, a integração das favelas, a obsolescência das instalações esportivas e é claro, os problemas de mobilidade urbana.
A equipe do Cidade Inteira saúda todas as parcerias formadas, em todos os âmbitos, que visam à troca de experiências, o conhecimento e aprofundamento dos casos, a fim de alcançar os melhores resultados, para os jogos e sobretudo, para as nossas cidades.

Leia o resumo do evento no site do IAB-RJ:
Veja as duas pequenas reportagens publicadas pelo Globo: