
sábado, 7 de maio de 2011
O debate da arquitetura

Patético

É triste, muito triste, constatar que decorreu 45 anos daquelas cenas patéticas registradas no vídeo e o protagonista permanecer no proscênio da política brasileira, enquanto seu estado, o Maranhão, também permanece no mesmo patamar de pobreza e desigualdade em que se encontrava.
sábado, 30 de abril de 2011
"O novo centro metropolitano"

Na matéria existe o seguinte trecho: "Graças às expectativas geradas pelas obras de infra-estrutura viária, grandes empreendimentos são anunciados na Barra e no entorno da Baixada de jacarepaguá. Ali, a Avenida Embaixador Abelardo Bueno desponta com ambições de se tornar o novo centro metropolitano do Rio, como teria imaginado, há 40 anos, o arquiteto e urbanista Lúcio Costa".
Ainda na matéria, existe o seguinte destaque: "O futuro centro do Rio vai ser a Barra da Tijuca; o centro metropolitano será o que a Avenida Rio Branco é hoje" (citação, destacada na matéria, de Caetano Sani, diretor da Brookfield Incorporações).
Será que essa é a estratégia adequada para a cidade, ou deve ser reforçado o centro histórico e a zona portuária, como área central, conf orme política desenvolvida pela Prefeitura?
Ô abre alas que eu quero passar...
A ponte Rio-Niterói, por exemplo, poderia ser reduzida a quase um terço de sua extensão, se saísse das proximidades do Santos Dumont e chegasse do outro lado da baía, no bairro do Gragoatá. Houve certamente motivos na época, embora de fato os desconheça, para ter sido erguida onde foi. Nesse caso, a eficiência existiu, presume-se, embora não tenha coincidido com o melhor percurso aparente.
O próprio Santos Dumont já foi exemplo de ligação eficiente, mas de menor trajeto. Atravessava-se o pilotis, tomava-se um café e entrava-se direto na pista para pegar o avião, a poucos metros da calçada. O anexo que foi construído quebrou essa lógica.
Mas para além da eficiência, há outro aspecto, a relevância. Como eficiência e relevância não deveriam ser coisas desconexas, mas são, no sentido de que basta uma delas para se construir alguma coisa, sendo que pode-se ainda construir alguma coisa sem nenhuma delas, importa haver equilíbrio entre os dois aspectos.
É o que se espera no Rio, dos quatro grandes projetos de ligação entre bairros, que no momento estão sobre a mesa: Ipanema - Barra da Tijuca, Deodoro - Barra da Tijuca, Aeroporto - Barra da Tijuca e Santa Cruz - Barra da Tijuca. A primeira, via Metrô, as demais por corredores expressos.
Sem números e estatísticas, não se põe em dúvida a sinceridade no entendimento de que esses sejam os investimentos mais relevantes em transportes para os Jogos e para o Rio, como legado.
Fato é que a Barra sediará uma parte importante das Olimpíadas e está numa área distante do Centro, da Zona Norte, da Zona Sul e mesmo da Zona Oeste, o que faz com que os investimentos em transportes se revistam de maior sentido.
No entanto, há outras ligações nada eficientes e bem mais relevantes.
Evidente, se fosse possível hoje executar ao mesmo tempo conexões rápidas entre todos os bairros da cidade, nenhuma delas seria mais relevante que as outras. Mas não é o caso, não há recursos para todas, o que torna a relevância de uma relativa à de outras.
Os trajetos até hoje mais populosos, os do Centro – bairros da Zona Norte, são culturalmente relevantes e historicamente conturbados, embora o Centro e a Zona Norte sejam o espírito da cidade. Não é questão de bairrismos - o que o carioca e sua cultura produziram para o país e para o mundo não teve tempo de vir da Barra da Tijuca. Mas não se trata de implicar com os BRTs Rio – Barra da Tijuca, já consumados. Trata-se de aproveitar a oportunidade e também olhar a cidade nos trajetos dos maiores deslocamentos e de suas raízes.
A cultura carioca para todos é a dos nascidos e moradores da Zona Norte, Chiquinha Gonzaga, Lima Barreto, Cecília Meireles, Nelson Cavaquinho, Almirante, Noel Rosa, Ataulfo Alves, Moreira da Silva, Nelson Rodrigues, Tom Jobim e os que fizeram as fundações da ponte Rio-Niterói, o pilotis do Santos Dumont... e a dos nascidos e moradores do Centro e arredores, Machado de Assis, Ernesto Nazareth, as filhas do presidente Afonso Penna, mães do carnaval de rua carioca, Villa-Lobos, Di Cavalcanti, Pixinguinha, Ismael Silva, fundador da primeira escola de samba no Estácio, Cartola, Carmem Miranda.
O Centro do Rio e seu patrimônio há muito decaem. Do Paço Imperial ao Largo de São Francisco, da Ouvidor à Praça da República. Algo a ser pensado. Não para os Jogos, para nós - a Zona Norte, com tamanho crédito com a cidade pede socorro aos bons meios de transportes.
Retoma-se a sugestão mais do que cantada pelo(a) Cidade Inteira, como justiça à história do Rio: a conexão Centro – bairros da Zona Norte. Com vagões rápidos, pontuais, ar condicionado, estações decentes, facilmente acessíveis.
E salve Estácio, Salgueiro, Mangueira, Osvaldo Cruz e Matriz...
sexta-feira, 22 de abril de 2011
Assis Reis

Sérgio Magalhães
Nascido em Aracaju, criado na Parnaíba, cidadão de Salvador, arquiteto do Brasil. A obra de Assis se diferencia no conjunto arquitetônico moderno brasileiro. Na luz, na cor, na mescla de volumes e de tecnologias, na multiplicidade de intenções, é uma obra rica e complexa. Não é linear.
Assis era uma figura. Amigo atento, bem humorado, dançarino (dizia...), jogador, baiano. Sua verve era iluminada e seus enunciados tinham colorido. Seus projetos são instigantes; não nos deixam indiferentes ao vivenciarmos seus espaços.
Sua arquitetura evidencia uma enorme intuição, cultivada no âmago da cultura brasileira. Arquiteto até o fim, sempre, nunca deixou de especular sobre a cidade, o edifício, os materiais, o fazer.
Dois projetos de Assis Reis não chegaram à concretude –o pavilhão para Osaka e o Centro de Identidade Cultural. O primeiro, recebeu destaque no concurso nacional para a escolha da representação brasileira na Exposição Universal do Japão, em 1970. O segundo, é fruto de sua determinação em promover a cultura da cidade, a partir do “modelo reduzido” de Salvador, que construiu nos anos 1970. Mas essas duas concepções, absolutamente singulares, foram fundidas em um só estudo, que apresentou ao governo da Bahia há poucos anos.
Como a cidade do Salvador teria se enriquecido com essa obra! Quem sabe ainda possa ser reabilitada essa idéia? http://www.vivercidades.org.br/publique_222/web/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=1486&sid=12
Infelizmente, o registro de seu trabalho é precário. Essa lacuna precisaremos suprir, seus amigos, admiradores, estudiosos da arquitetura. Será mais do que uma homenagem a este sempre jovem arquiteto brasileiro, que nos deixou no apogeu de seus 85 anos; será um resgate em benefício da arquitetura e da cultura brasileiras.
Viva Assis!
Veja: www.assisreis.blogspot.com e http://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_de_Assis_Reis
segunda-feira, 18 de abril de 2011
Universo urbano sustentável e cidades pós-contemporâneas

Eduardo Cotrim
O Universo se tornou finito e ganhou um começo na era contemporânea. É pouco relevante aqui se a finitude do Universo tenha vindo da premissa inversa, a de que um dia surgiu, logo é finito. Fato é que a infinitude nunca pareceu algo muito bem aceito. Ainda que a inexistência absoluta, aquela que precede à coisa surgida, seja uma idéia igualmente desconfortável, quase insustentável, opta-se, contudo, pela noção de começo, de advento. Advento do Universo, do Planeta, da História, da Cidade, da Antiguidade e da Contemporaneidade...
Quanto a essa última, a mais complexa, sabe-se que teve início entre os anos 1940 – 1960. Pode ser um registro particular, com base em informações não avaliadas de forma adequada, mas por outro lado, se coisas como arte, ciência, cultura e urbanismo são ditas como contemporâneas, do mesmo modo como são ditas modernas, pós-modernas, clássicas e neoclássicas, é justo que a Contemporaneidade adquira também seu direito ao declínio.
No entanto, ao menos no Planeta, viver num mundo pós-contemporâneo é por princípio absurdo. Mas enfim, um absurdo com o qual se deve conviver, pois, inevitavelmente, o presente carecerá de limites, se é que já não se expandiram o suficiente.
A pós-contemporaneidade parece fazer algum sentido (além do seu lugar no fim dos tempos), num dado modo de observação da história, ecológico no sentido mais amplo, a partir do universo espacial de coisas terrenas, familiares e cotidianas.
As cidades aparentam ser o melhor termômetro da relação dos homens com os tempos do seu mundo. Se as melhores cidades do Planeta representam o tempo corrente, as demais, que comungam da mesma estrutura lógica, estão atrasadas - não são contemporâneas, pertencem ao passado da civilização urbana, se o termo não for redundante. Por sua vez, se as piores se identificam com o nosso tempo, as outras, obrigatoriamente, já ocupam diferentes posições no futuro.
Na primeira hipótese, onde o presente convive com o passado, as cidades que não se alinharam a tempo, no tempo em curso, para fazê-lo, ou precisam de mais tempo extra ou de muitos recursos extras, que não estão disponíveis. Aqui, a sustentabilidade é preservacionista, sobretudo do meio ambiente externo ao homem, tudo no mais é utopia e a Contemporaneidade permanece em vigor.
terça-feira, 12 de abril de 2011
A democratização da cidade

terça-feira, 5 de abril de 2011
De metrô a trem
segunda-feira, 28 de março de 2011
Pritzker Prize 2011: Eduardo Souto de Moura
O júri do Pritzker escreveu que:

Puxão de orelha
domingo, 20 de março de 2011
O núcleo e a essência do Rio

terça-feira, 15 de março de 2011
Legados intangíveis

Com os Jogos Olímpicos de 2016, mais do que a realização do maior evento esportivo do planeta, o Rio de Janeiro tem a oportunidade de desenvolver grandes projetos. Sob a justificativa de um calendário que inclui ainda os Jogos Mundiais Militares, em 2011; o Encontro Mundial da ONU para o Clima (“Rio + 20”), em 2012; e a Copa do Mundo da FIFA, em 2014; recursos humanos e financeiros estão sendo destinados a transformações profundas nas áreas de transporte, infraestrutura, segurança, meio-ambiente e social.
Porém, grandes eventos também deixam legados intangíveis, igualmente importantes para o futuro da cidade-sede. No caso de Barcelona, Pasqual Maragall, prefeito da cidade entre 1982 e 1997, não fala de estádios, aeroportos ou estradas quando define o maior legado dos Jogos de 1992. Para ele “os Jogos Olímpicos foram para Barcelona o aprendizado do êxito. Foram a convicção, provada por todos os cidadãos, de que somos capazes de enfrentar desafios ambiciosos e complexos.”
No Rio de Janeiro, a recuperação da auto-estima do carioca será talvez o mais importante destes legados intangíveis. Depois que deixou de ser a capital da República, o Rio viveu cinco décadas de perda da centralidade política e esvaziamento econômico. O carioca viu o seu sentimento de orgulho perder força, o que foi agravado com o aumento da violência. A visibilidade dos grandes eventos e a oportunidade de mostrar ao Brasil e ao mundo as suas belezas naturais e a alegria do seu povo vão recuperar uma auto-estima que parecia perdida. Esse movimento começou a ser observado nos últimos anos, com a retomada de territórios pelas Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), e ganhou força com a escolha do Rio como sede dos Jogos Olímpicos, em 2 de outubro de 2009.
A marca Rio de Janeiro também será impactada. Logo após a vitória em Copenhague, a cidade teve uma exposição recorde. Nos próximos seis anos, haverão inúmeras oportunidades de agregar novos atributos à marca Rio, como sustentabilidade, turismo familiar e pólo da indústria criativa.
Outro legado intangível é a construção de uma cultura de planejamento de longo prazo para a cidade, sobretudo dentro dos Governos do Estado e Municipal. A maioria dos projetos de legado tem extenso prazo de execução, perpassando mandatos e exigindo um olhar estratégico. A cobrança internacional – de órgãos como ONU, FIFA e COI – sobre as promessas feitas pelos governos requer uma capacidade de planejamento e acompanhamento estruturados desses projetos.
Este plano de transformação da cidade só é viável com o trabalho coordenado entre os três níveis de governo e o envolvimento da sociedade. O seu sucesso trará inevitavelmente uma maior consciência na população sobre a importância das boas relações institucionais entre os Governos Federal, Estadual e Municipal.
Com estes legados intangíveis, somados às transformações sociais e de infraestrutura, o Rio estará pronto para enfrentar novos desafios, pois terá recuperado a sua capacidade de planejar e ditar o seu destino de cidade global.
*Felipe Góes é Secretário Municipal de Desenvolvimento da cidade do Rio de Janeiro.
segunda-feira, 14 de março de 2011
Obama e a essência do Rio
SM defende a valorização do espaço urbano como o lugar onde "os cidadãos se reconhecem como parceiros ao compartilharem imagens e memórias".
Fala especificamente da Cinelândia, "principal centralidade política, social e cultural brasileira na maior parte do século XX" e da importância de manter a vitalidade deste espaço e da centralidade do Centro Metropolitano.
Conclui dizendo que "o Rio precisa de seus espaços urbanos não por saudosismo. Representação, memória, identidade colectiva, são qualidades de alto valor referenciadas ao espaço urbano construídas social e historicamente."
Já no domingo, 13 de Março, o jornal O Globo deu a notícia (veja aqui) de que o Presidente dos EUA, Barack Obama escolheu exatamente a Cinelândia como palco para seu "discurso ao povo brasileiro" no próximo dia 20 de Março.
A escolha do Presidente Obama reforça a importância histórica deste espaço na política e vai ao encontro do texto escrito por SM.
Oxalá nossos políticos tenham a mesma sensibilidade de perceber a importância destes espaços da memória na construção de nossa cidade e identidade.
Em tempo: Alguém sabe quando foi a última vez que um Presidente discursou na Cinelândia?
quinta-feira, 10 de março de 2011
Richard Rogers

Um dos mais prestigiados arquitetos contemporâneos, sir Richard Rogers é co-autor com Renzo Piano do Centro Pompidou, o Beaubourg, em Paris; e autor dos projetos do Domo do Millenium, em Londres; do Terminal 4 do Aeroporto Barajas, em Madrid; da Torre 3, de reconstrução do World Trade Center, de Nova York; da Assembléia Nacional do País de Gales; e participa das dez equipes selecionadas pelo governo francês para pensar o futuro da Grande Paris.
Por sua atuação cultural, Rogers recebeu o título de Cavaleiro do Império Britânico, o de barão de Riverside e integra a Câmara dos Lords da Grã Bretanha. Recebeu inúmeros prêmios, como o Pritzker de 2007 (o Nobel da arquitetura), a Medalha de Ouro e o Prêmio Stirling, ambos do Real Instituto Britânico de Arquitetura (RIBA). Foi conselheiro do prefeito de Londres para a arquitetura e urbanismo por quase dez anos e do prefeito de Barcelona.
RR é autor do livro “Cidades para um Pequeno Planeta”, no qual defende um modelo de cidade compacta como condição de sustentabilidade e que preserve o espaço urbano como lugar da interação. Em especial tratando das metrópoles, Rogers é de opinião que há necessidade de um redirecionamento no desenvolvimento urbano, de modo a impedir os danos ambientais causados pela expansão desmedida e pelo uso abusivo do transporte individual.
Richard Rogers estará no Rio de Janeiro para proferir conferência intitulada “A Linguagem da Arquitetura”, na exposição “A Cidade Somos Nós – Desenhando a mobilidade do futuro”, promovida pelo ITDP (Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento, sediado em Nova York, Estados Unidos) com o apoio do Instituto de Arquitetos do Brasil, RJ: dia 11, sexta-feira, às 15h, no Centro Cultural dos Correios.
Links relacionados:
http://www.richardrogers.co.uk/rshp_home
http://www.correios.com.br/sobreCorreios/educacaoCultura/centrosEspacosCulturais/CCC_RJ/default.cfm
segunda-feira, 7 de março de 2011
The Pruitt-Igoe Myth
A demolição do Pruitt-Igoe em 16 de Março de 1972, foi mitificada por Charles Janks como 'o dia da morte da Arquitetura Moderna'.
Ficamos na expectativa de que o filme chegue aos cinemas brasileiros.
Site do filme: http://www.pruitt-igoe.com/
Veja o Trailler:
domingo, 6 de março de 2011
O mau hábito carioca documentado...
Esta rara e pouco conhecida aquarela foi feita pelo artista francês Jean Baptiste Debret entre 1817/29 e consta do belo livro de Pedro Correia do Lago "Debret e o Brasil", lançado recentemente pela Editora Capivara, onde são reproduzidas mais de 1.300 obras de Debret, muitas delas inéditas.
É este o primeiro registro iconográfico de um mau hábito carioca, o de urinar na rua, onde bem lhe aprouver.
A aquarela pertence a Jean Boguici.
Nenhum artista tratou desse tema, infelizmente tão atual.
Anexo um texto sobre nossos porcos e velhos hábitos.
COPROLOGIA HISTÓRICA
Recentemente, a subprefeitura do Centro lançou uma campanha de mudança dos costumes muito boa. A municipalidade gasta verdadeiras fortunas com a limpeza e remoção de excrementos e urina dos logradouros do Rio. A falta de educação de alguns, aliada também à falta de bons banheiros públicos, generalizou o costume incivilizado de parte da população carioca se desobrigar atrás de todas as árvores, postes, esquinas e monumentos públicos da cidade. A campanha contará com cartazes moralistas relatando que “...esta não era a educação que seus pais lhe deram”. Apesar de a medida ser altamente meritória e necessária, os dizerem não encontram respaldo na história.
Com efeito, não são poucos os viajantes que se referem à sujeira das ruas do Centro do Rio no início do século XIX. As casas não tinham banheiros. No máximo, uma “casinha” no quintal, cuja fossa era limpa à noite por um escravo, o qual recolhia o conteúdo em tonéis de barro e depois conduzia esse “cabungo” na cabeça até a praia ou terreno baldio mais próximo, onde era feito o despejo. Como, freqüentemente, esse tonel vazava e tingia o infeliz de malcheirosas manchas, o povo apelidava esses pobres escravos de “tigres”.
Quanto ao povo, este se desobrigava em qualquer lugar. Não existiam pudores ou restrições. Afinal de contas, eram poucas as mulheres que saíam às ruas e, quando saíam, era aos domingos, e sempre acompanhadas de seus maridos ou pais. Nas ruas do Rio, no dia-a-dia de 1800, somente homens e escravos perambulavam. Para piorar a situação, o mau exemplo vinha de cima. Vinha do próprio Rei!
D. João VI comia muito, muito e mal. Diabético e doente, nem por isso se continha à mesa, devorando, por vezes, de quatro a seis frangos por refeição. Quando o Rei partia do Palácio de São Cristóvão em direção ao Centro, em sua carruagem não poderiam faltar um urinol, penico e os respectivos criados responsáveis pela sua higiene. No trajeto, a carruagem parava ao menos duas vezes. Quando era a vez do Rei “obrar”, a carruagem estancava, um criado montava o “trono” portátil e a guarda cercava Sua Majestade, impedindo os curiosos de ali passar. D. João sofria de flatulência, soltando gazes em todas as ocasiões, solenes ou não. Coitado do criado que esboçasse um riso ou gracejo. Seria cortado do serviço no Paço!
Vieira Fazenda, historiador carioca, relata o caso duma procissão de Corpus Christi em que o Rei arriscou um flato e este veio “acompanhado”; o que obrigou D. João a correr para uma casa na Rua Direita (atual Primeiro de Março), atrás de um “trono”. D. Pedro I herdou esse problema. A diarréia histórica mais famosa que conhecemos é a que acometeu o Príncipe, às margens do Riacho Ipiranga, em São Paulo , a 7 de setembro de 1822. Os historiadores citam que a viagem se retardara muito porque D. Pedro tinha de “...se apear do cavalo de meia em meia hora para obrar”. Estava nessa situação quando o correio Paulo Bregaro lhe entregou as cartas do Conselho de Estado, que pediam nossa Independência. D. Pedro se conteve como pôde, reuniu a guarda, informou-os da situação e deu o famoso brado que nos libertou de Portugal.
Em 1824, D. Pedro I assistia a uma parada dos soldados mercenários alemães na Fortaleza da Praia Vermelha, quando pediu desculpa aos oficiais, se agachou perto dum muro e “obrou” na frente dos embasbacados militares. Um desses militares alemães escreveu um diário onde relata que, quando ainda jovem, o Príncipe D. Pedro costumava urinar do alto da varanda do Palácio de São Cristóvão nos soldados que passavam embaixo. Nas cartas que enviou à sua amante, Marquesa de Santos, D. Pedro cita por várias vezes seus problemas gástricos. Numa missiva do Imperador datada de 13 de dezembro de 1827, existente no acervo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, ele conta que “...Cheguei à casa, tomei a tisana (remédio) e obrei até agora cinco vezes e muito.” Noutra carta, esta sem data, mas igualmente da coleção do IHGB, ele conta que “...Eu não passei muito bem... ...depois obrei e agora estou perfeitamente bom...” Nem todas as cartas de D. Pedro eram assim. Numa delas, datável de julho de 1826, ele até escreveu no envelope um poema à sua amada:
“Este lindo passarinho canta,”
“brinca, pica e fura,”
“mas quando torna a repicar,”
“é mais doce a pica dura.”
A Marquesa era até informada dos problemas coprológicos das filhas do Imperador. Na carta datada de 23 de setembro de 1827, da coleção Caio de Mello Franco, D. Pedro relatava que a filha de ambos, Duquesa de Goiás, “...tomou um purgante de óleo de mamona, com que obrou três vezes e deitou uma lombriga.”
Afinal, no meio dessa literatura “tão romântica”, D. Pedro pediu perdão à sua Marquesa pelos assuntos tão particulares assim relatados, justificando-se, na carta de 13 de dezembro de 1827, de que nele “A fruta é fina, posto que a casca seja grossa”.
Portanto, se a subprefeitura for contar com a educação de nossos antepassados, - estamos roubados!
*Milton de Mendonça Teixeira é historiador.
sexta-feira, 4 de março de 2011
Central Park com praia

terça-feira, 1 de março de 2011
Modelo não inclui morador como protagonista
O debate sobre a cidade




