terça-feira, 2 de agosto de 2011

Segura e sem grades

Sérgio Magalhães
*Artigo publicado originalmente no jornal O Globo de 30/07/2011
O controle da inflação permitiu que uma agenda de premências, a que estavam submetidos os brasileiros, desse lugar a uma agenda de possibilidades. Nesta semana, o Brasil tornou-se o quinto maior destino de investimentos internacionais. Grandes recursos tornam-se disponíveis para realizações antes inimagináveis.
Ter ou não ter inflação já não deriva de causas naturais ou metafísicas. Apesar de os componentes financeiros serem intangíveis, nós sabemos que eles são construídos. No entanto, em assuntos com grande presença material, como é uma cidade, nem sempre estamos atentos às causas que produzem os efeitos em nosso cotidiano. Parecem-nos frutos da natureza, embora sejam frutos da cultura.
Lembro de um adolescente carioca dos anos 1990 que se mostrou surpreso quando seu pai comentou sobre o absurdo de as calçadas estarem tomadas pelos automóveis :“Mas não é onde devem ficar?” Ao longo da vida do jovem, os passeios tinham sido “naturalizados” como lugar de veículos.
Estacionar automóveis nas calçadas parecia inevitável no Rio do fim do século. E, para muito poucos, era um despropósito levar-se o cachorro a passear e brindar as áreas entre carros com “lembranças”do programa.
No entanto, a situação mudou, para melhor.
Fumava-se em ônibus, em restaurantes e até em hospitais. A rua estava disponível para a fumaça negra emitida pelos coletivos. A Lagoa recebia esgotos sanitários in natura e as línguas negras chegavam à areia das praias, as quais ainda serviam de lixeira a céu aberto. Nas eleições, cartazes colados por todo lado. Tudo isto era natural.
A percepção de naturalização decorre muitas vezes da repetição reiterada, que nos faz crer o fenômeno como imutável. Mas, em outras situações, trata-se de um modo de sublimar determinado problema.
Em 1937, quando o Rio já tinha quase 300 mil moradores em favelas, um decreto proibiu que elas constassem do mapa da cidade. Não estando no mapa, talvez inexistissem... Para melhorar o trânsito, suprimiu-se o bonde. Seria natural que o automóvel fechasse as ruas. E, quando se percebeu que o setor financeiro se mudava para São Paulo, proibiu-se construir novas moradias no Centro da cidade— imaginando-se que a área ficaria disponível para grandes corporações financeiras. Nem estas vieram, nem moradores— e o esvaziamento consolidou-se.
Deixar o problema prosseguir em busca de sua naturalização ou impor uma solução meramente ideológica, são ações divergentes na aparência apenas.
Jane Jacobs, a americana que escreveu o livro seminal “Morte e vida de grandes cidades”, alertava, a partir da experiência dos Estados Unidos, que não necessariamente a abundância de meios produz melhores cidades. Em seu país, o crescimento econômico também construiu cidades inóspitas e ambientes degradados.
É que as razões da boa cidade não são encontráveis em prateleiras de mercado, prontas ao uso. Mas são constituídas na complexidade da vida coletiva, no âmago da cultura. Com bons princípios, nos dizia Jacobs. E com bons projetos.
Se, felizmente, temos hoje possibilidades de investir em nossas cidades, nem por isso podemos perder energias e recursos. Nosso passivo urbanístico e ambiental não é pequeno. A Lagoa está em franca recuperação. Mas a Baía de Guanabara ainda espera o seu reerguimento.
A cidade metropolitana do Rio, deixando-se como está, acelerará o processo de expansão predatória de ocupação do território e de ampliação da miséria. Mas é possível estancá-lo. Precisamos institucionalizar políticas setoriais metropolitanas, como a de transporte público. É bom o exemplo de São Paulo, que há mais de trinta anos mantém carteira de projetos no BNDES em busca de financiamento para o metrô. ”Naturalmente” os trens não se transformam em metrô; com projetos, sim.
Tampouco é apenas com grandes investimentos que a boa cidade se constrói. Nossas calçadas já não são dos automóveis! Contudo, nosso espaço público ainda é maltratado,cheio de obstáculos. Se tivermos o desejo de espaços públicos qualificados, bons projetos contarão com a participação cidadã para a sua implantação.
Foi possível impedir que se fumasse nos ônibus e evitar a fumaça negra.Se tivermos projeto, poderemos alcançar no médio prazo que nossos ônibus sejam amigáveis, confortáveis, com acessibilidade universal, silenciosos: que sejam urbanos.
Ainda por longo tempo nossas cidades terão uma agenda de premência. Saneamento, mobilidade e habitação são temas cruciais. Mas já é possível objetivarmos uma agenda paralela de ações mais disseminadas, em que também seja ampliada a nossa adesão à cidade e evidenciadas as energias que a população está disposta a oferecer. O carnaval que voltou às ruas é uma evidência do desejo carioca por uma cidade aberta, livre, alegre. Segura e sem grades.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Complexo do Alemão HD

Lucas Franco
Recebi a foto acima descrita como "a primeira, única e maior GIGAFOTO feita em uma FAVELA no Brasil."


Tecnicamente, segundo as descrições dos autores, "a imagem tem 138.286 x 36.532 PIXELSS ou seja = + de 5 Gigapixels REAIS. Esta gigafoto foi composta com 685 clicks e cobre 190 graus de visão."

Fotografamos no dia 10 de janeiro de 2011, e me ajudando estavam os 2 fotógrafos e companheiros: Stefano Aguiar e a Andréa Simões.
Fotografamos SEM parar de 13:36 até as 15:22, gerando 84 gb de arquivos, debaixo de um sol estúpido, isso depois de nos perdermos dentro das vielas do Morro do Alemão (já pacificado)."


Na verdade, no blog próprio fotógrafo, Ayrton 360º, encontramos além de inúmeras fotografias panorâmicas com 360º, uma seção exclusiva de fotos em favelas.

Visitas altamente recomendadas:

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Compacta por fora, gigante por dentro

*Do web-site do Instituto Ciência Hoje
O território da cidade francesa de Paris (vermelho) sobreposto ao do município do Rio de Janeiro. Paris é exemplo de cidade centralizada e compacta , modelo que Magalhães defende com o essencial para um a metrópole sustentável. (montagem: Sérgio Magalhães)

Com críticas a 'campi' universitários isolados e transporte público sobre rodas, o arquiteto Sérgio Magalhães – mais novo colunista da revista CH – defende, em conferência na 63ª Reunião Anual da SBPC, que uma cidade democrática deve prezar pela compactação.

Por: Isabela Fraga
Publicado em 11/07/2011 | Atualizado em 12/07/2 011

O arquiteto Sérgio Magalhães, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, iniciou o mês de julho em grande estilo: estreou sua coluna na revista CH e ministrou uma conferência organizada pelo Instituto Ciência Hoje na 63ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da
Ciência, que acontece até o dia 15 de julho em Goiânia (GO).
Para ser democrática, uma cidade deve conter a expansão urbana e prezar pela compactação.
Conferência e coluna – batizadas de ‘Os desafios das cidades’ e ‘Cidade inteira’, respectivamente –, compartilham não só o autor, mas também uma ideia fundamental: para ser democrática, uma cidade deve conter a expansão urbana e prezar pela compactação.
“A expansão desenfreada e predatória se choca frontalmente com o desejo de democratização das cidades”, sintetiza Magalhães. “Ela dificulta a universalização dos serviços públicos e a garantia de mobilidade, fazendo com que a constituição brasileira não alcance todos os territórios
urbanos.”
O mote já havia sido levantado pelo próprio arquiteto em entrevista para a reportagem de capa da CH 274, publicada em setembro de 2010, sobre metrópoles sustentáveis.

Cidade sobre pneus.
O modelo de cidade expansionista estaria calcado em diversos apoios, como o transporte público sobre pneus – ônibus e vans – em detrimento dos trilhos – trens e bondes. “Também há doutrinas urbanísticas que estimulam a expansão. Os campi universitários federais são um exemplo: muito grandes e distantes dos centros das cidades”, pondera Magalhães.
Aqueduto da Carioca, no Rio de Janeiro, transformado em viaduto para bondes, em 1896. O transporte coletivo sobre rodas tomou o lugar dos bondes e trens, estimulando a expansão das cidades brasileiras. (foto: Marc Ferrez/ Domínio Público).
Para o arquiteto, pensar a cidade como um todo se torna inviável se os polos de pesquisa e de ensino – as universidades – estiverem isolados e distantes do centro urbano. A grande distância entre os campi e os centros e até entre os prédios universitários entre si seria fruto tanto de um
pretenso impedimento da mobilização estudantil pelo governo militar durante as décadas de 1960 e 1970, quanto de uma arquitetura modernista iniciada na década de 1920.

Paris cabe no Rio!
Magalhães cita o Rio de Janeiro como exemplo de cidade expandida: enquanto de 1940 a 2000 o número de habitantes aumentou 13 vezes – de 12 milhões para 160 milhões –, o número de domicílios saltou de 2 milhões para 40 milhões – um crescimento de 20 vezes. Ao mesmo tempo, a densidade populacional diminuiu drasticamente: de 15,8 mil habitantes por km2 em 1960, foi para 9,8 mil em 1996.
Ao longo do século 20, viver na cidade ficou mais caro à medida que mais serviços tornaram-se necessários para a vida urbana. Nesse período, também houve as grandes remoções de favelas para territórios vazios mais distantes, como Cidade de Deus, Vila Kennedy e Antares. “O resultado foi um crescimento da área da cidade em três vezes”, explica o arquiteto.
Para quem acha que baixa densidade populacional é sinônimo de qualidade de vida, Magalhães argumenta: Paris, considerada um modelo de metrópole, tem altíssima densidade populacional e uma igualmente alta qualidade de vida, com Índice de Desenvolvimento Humano de 0,917 (em uma escala de zero a um).
O território de Paris, praticamente o mesmo há mais de 200 anos, corresponde a uma pequena parte do município do Rio de Janeiro
A comparação com a capital francesa, aliás, é curiosa: o território de Paris, praticamente o mesmo há mais de 200 anos, corresponde a uma pequena parte do município do Rio de Janeiro. “Em um território muito menor, Paris ainda tem cerca de 350 pontos de metrô”, destaca
Magalhães. “É uma metrópole que fortalece a centralidade, enquanto as cidades brasileiras fazem o contrário”, reflete.
Uma cidade compacta estimularia não só a universalização dos serviços públicos, mas também aquela que é a característica principal da vida urbana, para o arquiteto: a interação social e o encontro de diferenças. “Eu diria que é impossível que a próxima geração avance consistentemente na construção da igualdade se persistir no modelo da expansão desmedida”, sentencia o arquiteto.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Um novo caminho

Artigo publicado originalmente no jornal O Globo de 02/07/2011
Sérgio Magalhães
Debater, discutir e criticar são ações indispensáveis para se alcançar uma cidade mais democrática, com bons serviços, uma cidade melhor. Nesta semana, o Rio de Janeiro deu mais um passo nesta direção, com a divulgação do concurso de projetos para o Porto Olímpico.

Por que tal concurso de arquitetura e urbanismo é importante para o Rio e para cidades brasileiras?

Assim que o Rio foi escolhido como sede olímpica, em meio à euforia, emergiu a defesa do melhor aproveitamento possível dos investimentos necessários aos Jogos de 2016. O prefeito da cidade explicitou o entendimento de que eles deveriam servir ao conjunto da cidade, sem privilégios por regiões. Não se tratava de desconsiderar os compromissos assumidos. Mas entre a apresentação da candidatura e a escolha da cidade, nova realidade surgiu. O projeto Porto Maravilha, iniciativa da Prefeitura, com o apoio do governo do Estado e do governo federal, tornou disponível extensa área no núcleo da metrópole –que poderia ser aproveitada para os Jogos.

A união dos três agentes governamentais e do presidente do COB, com o firme apoio dos meios de comunicação, permitiu ao prefeito Eduardo Paes propor ao COI a transferência de alguns equipamentos esportivos da Barra da Tijuca para o Porto. A proposta recebeu concordância parcial: admitiu-se aí implantar a Vila da Mídia e a dos Árbitros, que envolvem cerca de 5.000 unidades habitacionais, e alguns serviços, como o Centro de Mídia não credenciada. Agregou-se um Centro de Convenções, Feiras e um Hotel. A esse conjunto, denominou-se Porto Olímpico. A seguir, a Prefeitura promoveu, e, a seu pedido, o Instituto de Arquitetos do Brasil-RJ organizou, o concurso nacional de arquitetura e urbanismo para selecionar a melhor proposta, a ser construída em terrenos situados no entorno da avenida Francisco Bicalho. Participaram cerca de 1.000 arquitetos, em 83 equipes de todo o Brasil –em um debate invulgar, pelo volume e pela expressão, sobre conceitos do viver urbano contemporâneo.

Esse concurso acaba de indicar os vitoriosos, aptos a desenvolverem os projetos.

O Porto Olímpico cumpre vários papéis estratégicos para a cidade.

Primeiro, reforçando o Centro como lugar de negócios e de moradia, de comércio e de serviços. Ele estabelecerá um vínculo, de grande simbolismo para o futuro da cidade, entre os Jogos de 2016 e a recuperação do Centro do Rio.

Próximo das cinco linhas de transporte público sobre trilhos (as linhas 1 e 2 do metrô e as linhas de trens da Central, da Auxiliar e da Leopoldina), terá influência na modernização do eixo olímpico Deodoro-Engenhão-Maracanã-Sambódromo. Parece inevitável que esse eixo seja transformado em metrô, com trens circulando em intervalos curtos, composições seguras e confortáveis, em estações respeitosas para com o usuário: protegido da chuva e do sol e com acessibilidade plena a todo cidadão. Será um belíssimo legado se efetivado até 2016.

Outro papel estratégico está no desenho arquitetônico-urbanístico. Exemplifica um modelo que recupera o prazer do viver urbano compartilhando um espaço público de alta qualidade, desfrutando dos benefícios de morar e trabalhar em um lugar com diversidade de usos, de serviços e de renda. Justamente o que faz o encanto de Paris, de Nova York, de Londres, de Buenos Aires –e do Rio de Janeiro da Cidade Maravilhosa, esta da qual o Centro é a expressão inicial. O desenho do Porto Olímpico ressaltará as qualidades da cidade renovada, em ambiente contemporâneo. (O destino das cidades não precisa estar na vida em shoppings e em condomínios fechados.)

Finalmente, um terceiro papel estratégico: na escala em que se impõe, com 800.000m2 de construção, em terrenos equivalentes a 17 quarteirões, impactará positivamente os bairros vizinhos, incluindo a zona Norte, como atrativos para habitar e para trabalhar. Será assim um vetor de reaglutinação urbana, opondo-se à expansão difusa da cidade, com baixa densidade populacional –a qual, infelizmente, tem sido a tônica da ocupação urbana, não apenas do Rio, mas das cidades brasileiras em geral. Demonstrar um outro modelo, não predador, democrático, sustentável, é uma contribuição maiúscula que essa experiência carioca deverá representar. Quando se avizinha a Rio+20, comemorativa da Cúpula da Terra de 1992, é saudável debater concretamente um novo caminho.

O Centro do Rio confunde-se com a própria história do Brasil, afirmação da memória coletiva e de nossa identidade. Reforçá-lo como centro metropolitano, dar-lhe nova vitalidade, é, seguramente, uma boa causa. Vale a pena conhecer o que os arquitetos brasileiros concebem como a boa cidade, de hoje e do futuro.

Veja aqui um pouco dos trabalhos premiados no site do IAB-RJ

sábado, 25 de junho de 2011

Rio sem plano

Marat Menezes
O Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Sustentável (PDDUS) da cidade do Rio de Janeiro foi aprovado em fevereiro deste ano, finalmente, em sucessão ao Plano Diretor Decenal, vigente entre 1992 e 2002. Nas palavras do Prefeito, o novo plano serviria como "bússola" para as ações do Município.
Entretanto, nas principais discussões recentes sobre a Cidade, o Plano não tem sido sequer citado.
A mudança de localização da Rodoviária defendida recentemente pelo Prefeito não consta no PDDUS. A “bússula” não é mencionada ao se tratar de medida de alto impacto no desenvolvimento da cidade carioca e sua região metropolitana.
Seria o jargão tecnocrático, o número excessivo de artigos, a ausência de mapas e desenhos ou a pouca menção que faz ao elementos existentes na cidade a razão pela qual o PDDUS não baliza o debate?

Os planos do Rio

Marat Menezes
Assim como o Plano Diretor de 1992 e o Plano PUB-Rio de 1977, o PDDUS não contribui com a criação de uma nova imagem da cidade, ao contrário dos planos Pereira Passos - 1906, Agache -1930 e Doxiadis – 1965.

Segue abaixo seu único mapa:

PDDUS- mapa das macrozonas da cidade

O mapa se soma a trechos do texto que refutam as altas densidades de ocupação e a concentração de atividades, em prol da ocupação moderada e da dispersão dos empregos por todos os bairros a fim de reduzir os deslocamentos. São os mesmos argumentos utilizados no Plano Doxiadis, de 1965.
Em paralelo, ações do Governo do Estado e da Prefeitura do Rio de Janeiro também estão em consonância com o Plano de 1965 como, por exemplo, a prevalência do transporte rodoviário (BRTs) em detrimento dos modais ferroviário e aquaviário e a indução à expansão urbana através da abertura do Túnel da Grota Funda (que contribui com o adensamento de Guaratiba) e do Arco Metropolitano (como um novo vetor de expansão).

Serra da Grota Funda

Trajeto BRTs

Arco Metropolitano

Plano Doxiadis, 1965. Mapa da Região Metropolitana no ano 2000.

Plano Doxiadis, 1965. Mapa do Rio de Janeiro (à época, Guanabara) no ano 2000.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

No Tempo das Diligências...

Iso Milman*
Ontem, n´O Globo; - A Prefeitura cogita na transferência da Rodoviária para Irajá.
Hoje o jornal noticia a intenção do Governo do Estado de mantê-la no local, multiplicando sua área construída, dentro dos novos gabaritos propostos para o Porto Maravilha.
(Diga-se de passagem, apresentando um desenho que parece ter sido feito durante a noite, no guardanapo do restaurante).
Espera-se para esta semana um duelo na Avenida Francisco Bicalho entre representantes do Estado e do Município.
Não dá para acreditar que o Planejamento Urbano do Rio de Janeiro seja tão primário, que um equipamento estruturante como a Rodoviária, intenso gerador de tráfego, seja menosprezado na sua dimensão urbanística a ponto de não ter sua definição estipulada pelo Plano Diretor, ou ainda, que a harmonia política entre Estado e Município, que propiciou tantas frentes de crescimento para o Rio de janeiro, seja tão tênue e apresente-se dissociada, quando se trata de encarar com seriedade ações que terão conseqüências através dos tempos.
Na sexta feira o IAB promoveu num animado debate sobre o Plano de Habitação de Interesse Social no Município do Rio de Janeiro.
Presentes Nabil Georges Bonduki, Secretario Nacional de Recursos Hídricos e Ambiente Urbano, Sérgio Magalhães, Presidente do IAB, e coordenando a mesa, Gerônimo Leitão, Diretor de Arquitetura e Urbanismo da UFF.
Sergio Magalhães enfatizou uma realidade assustadora; dentre os trezentos e tantos artigos do Plano Diretor aprovado pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro, apenas um, se refere a uma área especifica da cidade, tudo mais é abstrato, podendo ser referido a diversas cidades.
Vários relatos expuseram a situação dramática das câmaras municipais, onde interesses dos mais diversos se superpõem aos critérios técnicos e as políticas democráticas, longe da participação dos movimentos sociais.
Não existe vento bom para nau sem rumo.
*Iso Milman é arquiteto

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Favela: ser ou não ser, eis a questão

Sérgio Magalhães

Há uma saudável polêmica na mídia, que começou com a notícia de que o Instituto Pereira Passos retirou do cadastro de favelas alguns assentamentos já urbanizados. Um amigo me pediu que esclarecesse melhor uma declaração minha que O Globo publicou no domingo, dia 5 de junho.

Entendo que favela se caracteriza sobretudo pela forma urbana, resultante de ocupação orgânica, sem precedência de traçado. Como demonstrado, a forma urbana não é impedimento para a implantação das infraestruturas e equipamentos indispensáveis à vida moderna; também é possível adequar o sistema viário de modo a permitir o acesso dos serviços públicos, pelo menos, à maior parte do assentamento ; e, ainda, é possível definir os limites público-privado.

Antes, eu achava que isso seria suficiente para a plena integração à cidade. Mas, depois dos primeiros anos de urbanização tipo F-B, vimos que em muitos lugares os serviços públicos não permaneciam, inclusive o de segurança. Sem este, muitos dos outros ficavam prejudicados, como o do controle urbanístico e edilício. Voltando o domínio territorial pela bandidagem armada, fortalece-se a idéia, obviamente preconceituosa, de que a favela é a causa da violência... Daí a confusão, entre muitos, de que somente deixará de ser favela quando não houver domínio territorial armado pelos bandidos.

Perguntado pela repórter do Globo sobre que percentagens de implantação de infraestrutura e de serviços públicos eu considero necessárias para que a favela deixe de ser considerada como tal, minha resposta foi mais ou menos a seguinte : -Uma vez infraestruturada e com os equipamentos públicos comuns, os serviços precisam ser os mesmos dos bairros vizinhos. Nem mais, nem menos. Inclusive o de segurança pública.

O fato da Prefeitura considerar como cidade algumas favelas que foram urbanizadas, para mim é uma declaração anti-preconceito que precisa ser exaltada. O Rio se reafirma como cidade não discrimininatória sintonizada com o século XXI e com as mais legítimas esperanças de vir a ser um lugar com equidade.

Concordo que seja feita a lista pela Prefeitura, porque é uma demonstração política de grande compreensão sobre a característica diversificada e múltipla do Rio, talvez a sua mais importante qualidade urbanística.

Pode o prefeito até não tido clareza disso, mas o Rio se posiciona à vanguarda no urbanismo contemporâneo, com respeito às diferenças, sem intolerância. A favela deixa de ser gueto, com pleno acesso de todos os serviços públicos, e passa a ser uma parte da cidade, com morfologia própria, em uma cidade morfológicamente múltipla.

Finalmente, e não menos importante, cria uma fronteira clara sobre o conceito de cidade que ajuda à universalização do serviço de segurança pública, o objetivo maior da UPP.

Leia o editorial do jornal O Globo de 07/06/2011: "Cuidados com a definição de 'ex-favelas'"

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Cidade, tempos e escolhas

Sérgio Magalhães
*Artigo publicado originalmente no jornal O Globo em 04/06/2011
Quando o prefeito Pereira Passos foi incumbido de modernizar o Rio de Janeiro, em 1902, ele buscou os planos de trinta anos antes, elaborados sob inspiração das grandes obras do Barão Haussmann, em Paris. Assim também fez o próprio Haussmann, que implantou na capital francesa as ideias que tinham sido debatidas em décadas precedentes.
Talvez resida nesse hiato, entre o pensar e o fazer, a percepção de que a cidade se faz segundo seus acasos. É que nós não atentamos à relação entre causa e efeito, tão lenta é a ida do pensamento à ação na vida das cidades.
Seus desdobramentos também se estendem no tempo. A reforma do Rio, por exemplo, que deu origem à Cidade Maravilhosa, teve vitalidade por longo período, talvez chegando aos anos 70. Foi até quando vigiu a mágica da “belacap”, cidade eternamente abençoada.
Esgotado um ciclo, as cidades podem refazer suas possibilidades com estratégias revitalizadoras, como ocorreu com Nova York, a partir dos anos 60; Londres, nos 70; Barcelona, nos 80.
Bilbao, a capital basca, é famosa a partir do Museu Guggenheim, projeto do arquiteto Frank Gehry. Mas é pouco sabido que o seu plano de recuperação se deu na década anterior, depois da derrocada do setor industrial. A estratégia foi desenvolver o setor de serviços ligados à cultura e ao conhecimento. Revitalizando o centro, o porto e a orla fluvial, a cidade preparou-se para os serviços avançados e para o turismo cultural, associando ao trabalho de Gehry outras obras de importantes arquitetos mundiais. Em 15 anos, dobrou o número de hotéis; organizava 88 congressos anuais e passou a 980; e o número de turistas saltou de 24 mil para 630 mil.
Muitas cidades quiseram seguir a capital basca, pensando que o milagre estava apenas na obra de arquitetura. Sim, está, mas também no desejo, no plano e no acerto das escolhas — como nos informa o crítico Llàtzer Moix, em seu livro “Arquitectura milagrosa”, no qual analisa o impacto das grandes obras como ícones para o desenvolvimento das cidades espanholas.
Esgotado o ciclo iniciado por Pereira Passos, o Rio ensaiou redesenhar-se. Mas, diferentemente daquelas cidades que fortaleceram suas preexistências e seus centros, o Rio optou pela expansão. Sendo rico em cenários consagrados e em monumentos icônicos, dispersou esforços — e os desperdiçou em troca da novidade.
No fim dos anos 60, desejando firmar-se como núcleo do turismo de feiras, São Paulo construiu o Centro de Convenções e Exposições do Anhembi, à marginal do Tietê. Na década seguinte, o Rio replicou com o complexo do Riocentro, na Barra. Embora o Rio tenha sido historicamente o principal destino turístico no Brasil, São Paulo tornou-se o foco do turismo de negócios, feiras e exposições do país. A escolha errada de localização do Riocentro ajudou nossa cidade a ficar aquém de suas potencialidade no setor.
Comparemos: o Anhembi está a três quilômetros do coração de São Paulo e a cinco quilômetros da Avenida Paulista, ligado ao metrô. O Riocentro dista 35 quilômetros do Centro e 30 quilômetros de Copacabana, lugar preferido dos turistas. Vem-se ao Rio ou ao Riocentro? Qual alternativa a considerar?
Agora, com os grandes eventos, a cidade tem a oportunidade de se fortalecer, inclusive no turismo. A Embratur tem planos importantes para o Rio e o seu presidente diz que a cidade pode se transformar em uma das cinco mais importantes do planeta para o setor, se souber aproveitar essas oportunidades. A Copa do Mundo de 2014 acaba de definir seu Centro de Mídia e optou pelo Rio como sede: uma vitória maiúscula. Como iremos valorizar essa escolha?
Estamos a poucos dias de o prefeito Eduardo Paes autorizar o anúncio dos projetos vitoriosos no concurso público nacional de arquitetura para o Porto Olímpico, a ser implantado na Avenida Francisco Bicalho, na área portuária. Além da Vila da Mídia e dos Árbitros, para os Jogos de 2016, o complexo inclui um Centro de Convenções, Feiras e Hotel, que preencherá uma lacuna por equipamentos do gênero. Tem ótima localização, central, entre os dois aeroportos e junto ao metrô. É possível que esse complexo esteja concluído até 2014, a tempo da Copa do Mundo. Ele dista menos de dois quilômetros do Maracanã, nossa sede do futebol. Tal proximidade será fator importante para que se torne uma alternativa vantajosa ao Riocentro para sediar a Mídia da Copa. Assim, reforçará o papel revitalizador do Porto Maravilha para a cidade.
Sendo um projeto pontual, integra-se porém a uma estratégia curtida no tempo: afinal, desde os anos oitenta que o Rio deseja fortalecer sua região central e sua área portuária. É preciso aproveitar cada oportunidade, diz a Embratur.
Ao escolher o Rio como sede da Mídia da Copa, a Fifa acertou. Agora, incumbe buscar a melhor solução, valorizar a escolha.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Desafios do novo perfil demográfico do Centro

*Editorial do jornal o Globo de 29/05/2011
O Censo 2010 registra uma estimulante tendência demográfica no Rio — a redescoberta do Centro da cidade, e seu entorno, como opção habitacional. Dados apontam um aumento,nos últimos dez anos, de 5,1% da população da Região Administrativa, que havia sofrido uma retração de 20,3% na década de1990. A retomada é ainda mais expressiva em outras áreas da região central, como a Zona Portuária, que registrara uma queda de 9,3%na década anterior. Pelo novo recenseamento,registrou um crescimento populacional de 21,7%. Há explicações sociais, urbanísticas, econômicas, administrativas e de ordem prática para esta curva ascendente.
O Rio tem um grave contencioso habitacional,reflexo de uma política de ocupação da qual resultaram nichos de moradia preferenciais— a Zona Sul e parte da Zona Norte,com boa rede de serviços urbanos mas adensamento populacional fora dos limites do suportável,e o subúrbio e a Zona Oeste, menos adensados, mas com infraestrutura urbana precária. O déficit de casas leva a população a buscar alternativas à demanda de prédios para uso familiar — daí o movimento rumo ao Centro, que também tem apelos como uma ocupação que ainda pode estender-se por áreas próximas, uma rede de serviços razoável e a proximidade do local de trabalho.
Outro fator ajuda a explicar a nova tendência: a revitalização do Centro, já visível em áreas como a Lapa, com muitos lançamentos imobiliários, e a Praça Tiradentes, reformada. Em outras regiões, a oxigenação urbanística é potencialmente real, como a Zona Portuária, com o projeto Porto Maravilha, incluindo intervenções como a demolição de parte do Viaduto da Perimetral.Também ajuda a levar água para o desenvolvimento desse espaço da cidade a decisão de para lá transferir uma parte do projeto dos Jogos Olímpicos de 2016.
Por óbvio, o movimento de reocupação do Centro implica modernizar, no mesmo ritmo, a rede de infraestrutura e serviços urbanos, bem como melhoraras condições de habitabilidade(segurança, mobiliário, incentivos à instalação de empresas,casas comerciais, colégios,hospitais, essenciais para tornar dinâmico o dia a dia), de modo a dotar a região das mesmas ofertas de lazer, educação e consumo de outros bairros.É fundamental também que o crescimento seja acompanhado de ações de ordem urbana,com a presença da Guarda Municipal para evitar abusos (calçadas mal conservadas,entulhadas de ambulantes) e preservar a qualidade de vida dos moradores.
O longo tempo de abandono do Centro, contra partida de uma política urbanística de que decorreu a gordura demográfica na ocupação da Zona Sul e a transferência de vultosos recursos preferencialmente para o desenvolvimento da Barra, deixou a região com grandes carências. Ademais, a área tem grande população flutuante nos dias de semana — pessoas que lá trabalham ou estão em compras —, o que só potencializa as demandas.
Eis, portanto, o poder público diante de um quadro com potencial para revolucionar o perfil demográfico da cidade. O desafio é gerenciar eficazmente essa nova realidade, para torná-la de fato positiva.

Clique aqui para ler o texto no formato original.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Agora é Foster

Sérgio Magalhães

Depois da visita de Richard Rogers, há poucas semanas, agora é seu colega, patrício e ex-sócio Norman Foster quem visitará o Rio.

Foster faz par com Rogers na defesa da cidade compacta: “É preciso unir as lições da História e da tradição, de quando não tínhamos edifícios muito dependentes de energia. Os típicos arranha-céus modernos nasceram numa época de energia ilimitada e barata (...) hoje, não há mais uma fonte infindável de energia barata, por isso é necessário pensar em cidades compactas, criar prédios que trabalhem com a natureza, aproveitando as sombras, aprender com a História, usar a tecnologia mais avançada para melhorar a qualidade do meio ambiente, usar fontes de energia renováveis, criar calor ou energia de lixo queimado. (...) As cidades mais desejáveis são amigas dos pedestres.”

A cidade compacta é um desejo que se fortalece no urbanismo contemporâneo. Para nós, aqui, já precisamos ir mais fundo: é necessário que estanquemos a expansão indefinida e predatória do tecido urbano, espichado pela falta de política pública e pelo laissez-faire quanto à hegemonia do modo de transporte sobre pneus. A cidade se expande na miséria das periferias cada vez mais pobres, menos infraestruturadas, menos equipadas,mais longe.

Como o Brasil é muito acostumado a valorizar o importado, vamos torcer para que cada visita de um destacadíssimo arquiteto como Foster, para além de valorizar a arquitetura como expressão cultural e profissional , seja também estímulo para a revisão da rota de crescimento predatório de nossas cidades.

Clique aqui e aqui a leitura completa da entrevista de NF ao Globo, 19mai11.

sábado, 7 de maio de 2011

O debate da arquitetura

Sérgio Magalhães
*Artigo publicado originalmente no Globo de 07/05/2011
A cidade é o maior artefato da cultura. E a cidade contemporânea é um fenômeno em dimensões tais que supera todas as experiências sociais precedentes.
O objeto da arquitetura deixou de ser o edifício excepcional que se construía artesanalmente e tornou-se o conjunto de intervenções modificadoras do ambiente construído. A arquitetura é a cidade contemporânea em suas múltiplas conformações, desde o domicílio familiar até às grandes estruturas ambientais em escala territorial.
Com a industrialização, em resposta ao desafio das grandes demandas,a arquitetura despiu-se dos cânones, dos ornamentos, das simetrias. Voltou-se para a efetividade. Uma nova estética foi proposta. O simples, o despojado, oracional assumiram o centro da beleza. Novas tecnologias foram concebidas, compatíveis com a multiplicação.
Tudo novo, nada do que fora herdado seria compatível com os novos tempos. Os arquitetos voltaram-separa cidades ideais e edifícios exemplares,os quais deveriam cumprir o papel de faróis do futuro.
Quando o tempo das certezas absolutas ruiu, percebeu-se que a cidade que resistira à avalanche destrutiva modernista tinha valores importantes a manter. Ela já não era mais necessariamente descartável. A cidade produzida pelas multidões se manifesta em toda sua concretude.
As edificações espetaculares não resumem a arquitetura que o século XX produziu. Mas se encontra na grande cidade um dos esteios do desenvolvimento que o mundo experimentou. Foi a cidade quem deu abrigo ao sonho urbano, quem permitiu o avanço da educação,da saúde, do lazer. Por precária com que possa ser percebida, é ela a grande arquitetura deste século XXI.
Mas não é única.
Os novos tempos, diferentemente do que imaginavam os modernos, não é o lugar da padronização, mas da diversidade. É a multiplicidade que caracteriza o ambiente contemporâneo. Assim, a arquitetura é também diversa, múltipla, e acolhe inúmeras manifestações. Ela é complexa no fazer e, obviamente, no ensinar. Já não se retém nos gestos geniais autônomos. Paisagem, escala, ambiente, patrimônio são atributos que ajudam a configurar uma arquitetura contemporânea que não se apoia mais na exceção, mas na qualidade em sinergia com o existente, na contiguidade. É uma nova ética e uma nova estética.
Mas nossas cidades permanecem sob tutela de legislação calcada nos velhos conceitos. Há uma verdadeira inércia epistemológica a promover obras que nascem velhas —onde os valores se apoiam em índices inespaciais, em contas imobiliárias, referenciados ao domínio do lote, não ao contexto. Ao objeto mais do que às suas relações.
Avultam objetos arquitetônicos absorvidos na autor referência. Construções exibicionistas, na ânsia de se afirmar em ícones, ainda que vazios de significado. Quase big brothers arquitetônicos, cujos 15 minutos de fama infelizmente se estenderão por décadas.
Especialmente dos equipamentos públicos, os quais carregam consigo uma representação social, é espera-da uma atenção ao espaço coletivo.
Nesse sentido, é bem-vindo o decreto do prefeito do Rio determinando que novas construções sejam previamente avaliadas quanto ao estarem em acordo com os ambientes que as acolhem. Ele por certo evitará que outras obras-primas da insolência ambiental sejam erguidas na nossa cidade. Será tanto mais desejável que, em passo seguinte,o decreto seja transformado em lei, dando-lhe perenidade.
Estamos em um bom momento para essa reflexão
O país está crescendo, grandes recursos são destinados à construção. Infraestruturas estão sendo projetadas, aeroportos, conjuntos corporativos, bairros inteiros. Mas é preciso que cada obra seja qualificadora do ambiente. Aí, no caso das obras públicas, suas escolhas não podem continuar sendo por menor preço de projeto. Pois, em um passo seguinte,para além de aditivos na construção, transformam-se em monumentos à desconsideração da cidade.
Precisamos incorporar a dimensão contemporânea da sustentabilidade, seja na produção edilícia ou na urbana. Nesse aspecto, desde a década de 1990, o país tem tido boas experiências, o Rio, em especial, com intervenções qualificadoras do ambiente existente. Programas de urbanização de favelas e os de tratamento ambiental de centros de bairros são exemplos que se disseminam.
Mas, por complexo que se tenha tornado o fato arquitetônico, é essencial que seja compreendido na sua inteireza cultural. E o debate das expressões-limites, das arquiteturas que nos encantam e das que nos agridem,é muito desejável.
O debate da arquitetura é um bom caminho para a cidade.

Patético

Sérgio Magalhães
O jornalista Nelson Motta tem escrito artigos às sextas-feiras, no Globo, sempre com um olhar diferente sobre a nossa realidade. O talento de NM é inegável, em muitas áreas da cultura. Mas o artigo de ontem superou todos os anteriores. Vale a pena ler o artigo e o vídeo a que ele se refere, de autoria de Glauber Rocha, datado de 1966.
É triste, muito triste, constatar que decorreu 45 anos daquelas cenas patéticas registradas no vídeo e o protagonista permanecer no proscênio da política brasileira, enquanto seu estado, o Maranhão, também permanece no mesmo patamar de pobreza e desigualdade em que se encontrava.

sábado, 30 de abril de 2011

"O novo centro metropolitano"

Mauro Osório
Ontem o O Globo publicou, um Suplemento Especial, com a seguinte matéria dae capa: "Rio se transforma na capital dos novos imóveis comerciais".

Na matéria existe o seguinte trecho: "Graças às expectativas geradas pelas obras de infra-estrutura viária, grandes empreendimentos são anunciados na Barra e no entorno da Baixada de jacarepaguá. Ali, a Avenida Embaixador Abelardo Bueno desponta com ambições de se tornar o novo centro metropolitano do Rio, como teria imaginado, há 40 anos, o arquiteto e urbanista Lúcio Costa".

Ainda na matéria, existe o seguinte destaque: "O futuro centro do Rio vai ser a Barra da Tijuca; o centro metropolitano será o que a Avenida Rio Branco é hoje" (citação, destacada na matéria, de Caetano Sani, diretor da Brookfield Incorporações).

Será que essa é a estratégia adequada para a cidade, ou deve ser reforçado o centro histórico e a zona portuária, como área central, conf orme política desenvolvida pela Prefeitura?

Ô abre alas que eu quero passar...



Eduardo Cotrim
Tudo que ligue dois pontos de modo mais eficiente é fundamental, mas é sabido que a eficiência da ligação não significa sempre o melhor percurso aparente.

A ponte Rio-Niterói, por exemplo, poderia ser reduzida a quase um terço de sua extensão, se saísse das proximidades do Santos Dumont e chegasse do outro lado da baía, no bairro do Gragoatá. Houve certamente motivos na época, embora de fato os desconheça, para ter sido erguida onde foi. Nesse caso, a eficiência existiu, presume-se, embora não tenha coincidido com o melhor percurso aparente.

O próprio Santos Dumont já foi exemplo de ligação eficiente, mas de menor trajeto. Atravessava-se o pilotis, tomava-se um café e entrava-se direto na pista para pegar o avião, a poucos metros da calçada. O anexo que foi construído quebrou essa lógica.

Mas para além da eficiência, há outro aspecto, a relevância. Como eficiência e relevância não deveriam ser coisas desconexas, mas são, no sentido de que basta uma delas para se construir alguma coisa, sendo que pode-se ainda construir alguma coisa sem nenhuma delas, importa haver equilíbrio entre os dois aspectos.

É o que se espera no Rio, dos quatro grandes projetos de ligação entre bairros, que no momento estão sobre a mesa: Ipanema - Barra da Tijuca, Deodoro - Barra da Tijuca, Aeroporto - Barra da Tijuca e Santa Cruz - Barra da Tijuca. A primeira, via Metrô, as demais por corredores expressos.

Sem números e estatísticas, não se põe em dúvida a sinceridade no entendimento de que esses sejam os investimentos mais relevantes em transportes para os Jogos e para o Rio, como legado.

Fato é que a Barra sediará uma parte importante das Olimpíadas e está numa área distante do Centro, da Zona Norte, da Zona Sul e mesmo da Zona Oeste, o que faz com que os investimentos em transportes se revistam de maior sentido.

No entanto, há outras ligações nada eficientes e bem mais relevantes.

Evidente, se fosse possível hoje executar ao mesmo tempo conexões rápidas entre todos os bairros da cidade, nenhuma delas seria mais relevante que as outras. Mas não é o caso, não há recursos para todas, o que torna a relevância de uma relativa à de outras.

Os trajetos até hoje mais populosos, os do Centro – bairros da Zona Norte, são culturalmente relevantes e historicamente conturbados, embora o Centro e a Zona Norte sejam o espírito da cidade. Não é questão de bairrismos - o que o carioca e sua cultura produziram para o país e para o mundo não teve tempo de vir da Barra da Tijuca. Mas não se trata de implicar com os BRTs Rio – Barra da Tijuca, já consumados. Trata-se de aproveitar a oportunidade e também olhar a cidade nos trajetos dos maiores deslocamentos e de suas raízes.

A cultura carioca para todos é a dos nascidos e moradores da Zona Norte, Chiquinha Gonzaga, Lima Barreto, Cecília Meireles, Nelson Cavaquinho, Almirante, Noel Rosa, Ataulfo Alves, Moreira da Silva, Nelson Rodrigues, Tom Jobim e os que fizeram as fundações da ponte Rio-Niterói, o pilotis do Santos Dumont... e a dos nascidos e moradores do Centro e arredores, Machado de Assis, Ernesto Nazareth, as filhas do presidente Afonso Penna, mães do carnaval de rua carioca, Villa-Lobos, Di Cavalcanti, Pixinguinha, Ismael Silva, fundador da primeira escola de samba no Estácio, Cartola, Carmem Miranda.

O Centro do Rio e seu patrimônio há muito decaem. Do Paço Imperial ao Largo de São Francisco, da Ouvidor à Praça da República. Algo a ser pensado. Não para os Jogos, para nós - a Zona Norte, com tamanho crédito com a cidade pede socorro aos bons meios de transportes.

Retoma-se a sugestão mais do que cantada pelo(a) Cidade Inteira, como justiça à história do Rio: a conexão Centro – bairros da Zona Norte. Com vagões rápidos, pontuais, ar condicionado, estações decentes, facilmente acessíveis.

E salve Estácio, Salgueiro, Mangueira, Osvaldo Cruz e Matriz...

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Assis Reis

Sérgio Magalhães

Nascido em Aracaju, criado na Parnaíba, cidadão de Salvador, arquiteto do Brasil. A obra de Assis se diferencia no conjunto arquitetônico moderno brasileiro. Na luz, na cor, na mescla de volumes e de tecnologias, na multiplicidade de intenções, é uma obra rica e complexa. Não é linear.

Assis era uma figura. Amigo atento, bem humorado, dançarino (dizia...), jogador, baiano. Sua verve era iluminada e seus enunciados tinham colorido. Seus projetos são instigantes; não nos deixam indiferentes ao vivenciarmos seus espaços.

Sua arquitetura evidencia uma enorme intuição, cultivada no âmago da cultura brasileira. Arquiteto até o fim, sempre, nunca deixou de especular sobre a cidade, o edifício, os materiais, o fazer.

Dois projetos de Assis Reis não chegaram à concretude –o pavilhão para Osaka e o Centro de Identidade Cultural. O primeiro, recebeu destaque no concurso nacional para a escolha da representação brasileira na Exposição Universal do Japão, em 1970. O segundo, é fruto de sua determinação em promover a cultura da cidade, a partir do “modelo reduzido” de Salvador, que construiu nos anos 1970. Mas essas duas concepções, absolutamente singulares, foram fundidas em um só estudo, que apresentou ao governo da Bahia há poucos anos.

Como a cidade do Salvador teria se enriquecido com essa obra! Quem sabe ainda possa ser reabilitada essa idéia? http://www.vivercidades.org.br/publique_222/web/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=1486&sid=12

Infelizmente, o registro de seu trabalho é precário. Essa lacuna precisaremos suprir, seus amigos, admiradores, estudiosos da arquitetura. Será mais do que uma homenagem a este sempre jovem arquiteto brasileiro, que nos deixou no apogeu de seus 85 anos; será um resgate em benefício da arquitetura e da cultura brasileiras.

Viva Assis!

Veja: www.assisreis.blogspot.com e http://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_de_Assis_Reis

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Universo urbano sustentável e cidades pós-contemporâneas

Eduardo Cotrim

O Universo se tornou finito e ganhou um começo na era contemporânea. É pouco relevante aqui se a finitude do Universo tenha vindo da premissa inversa, a de que um dia surgiu, logo é finito. Fato é que a infinitude nunca pareceu algo muito bem aceito. Ainda que a inexistência absoluta, aquela que precede à coisa surgida, seja uma idéia igualmente desconfortável, quase insustentável, opta-se, contudo, pela noção de começo, de advento. Advento do Universo, do Planeta, da História, da Cidade, da Antiguidade e da Contemporaneidade...

Quanto a essa última, a mais complexa, sabe-se que teve início entre os anos 1940 – 1960. Pode ser um registro particular, com base em informações não avaliadas de forma adequada, mas por outro lado, se coisas como arte, ciência, cultura e urbanismo são ditas como contemporâneas, do mesmo modo como são ditas modernas, pós-modernas, clássicas e neoclássicas, é justo que a Contemporaneidade adquira também seu direito ao declínio.

No entanto, ao menos no Planeta, viver num mundo pós-contemporâneo é por princípio absurdo. Mas enfim, um absurdo com o qual se deve conviver, pois, inevitavelmente, o presente carecerá de limites, se é que já não se expandiram o suficiente.

A pós-contemporaneidade parece fazer algum sentido (além do seu lugar no fim dos tempos), num dado modo de observação da história, ecológico no sentido mais amplo, a partir do universo espacial de coisas terrenas, familiares e cotidianas.

As cidades aparentam ser o melhor termômetro da relação dos homens com os tempos do seu mundo. Se as melhores cidades do Planeta representam o tempo corrente, as demais, que comungam da mesma estrutura lógica, estão atrasadas - não são contemporâneas, pertencem ao passado da civilização urbana, se o termo não for redundante. Por sua vez, se as piores se identificam com o nosso tempo, as outras, obrigatoriamente, já ocupam diferentes posições no futuro.

Na primeira hipótese, onde o presente convive com o passado, as cidades que não se alinharam a tempo, no tempo em curso, para fazê-lo, ou precisam de mais tempo extra ou de muitos recursos extras, que não estão disponíveis. Aqui, a sustentabilidade é preservacionista, sobretudo do meio ambiente externo ao homem, tudo no mais é utopia e a Contemporaneidade permanece em vigor.

Na segunda, do presente em convívio com o futuro, exige-se talvez desse último, uma redução na produção de mais e mais conforto, aumento da durabilidade dos bens e seguramente um uso maior da inteligência. Aqui há previsões e utopias - a cidade sustentável acrescenta ao homem, o meio ambiente se acrescenta a ela e esta, um dia, ao futuro do presente...

terça-feira, 12 de abril de 2011

A democratização da cidade

*Artigo publicado originalmente no Globo de 09/04/2011
Sérgio Magalhães
Todos desejamos nossas cidades bem tratadas, funcionais, amigáveis. Sim, mas no cotidiano urbano estamos acostumados com cenas de desrespeito às posturas públicas, de uso inadequado do espaço coletivo, de descaminhos no trato de bens comuns.
Mas, se tais atitudes surpreendem o visitante, nem sempre afetam o olhar local. Quais seriam as razões desse quadro de incoerência entre o desejado e o vivido?
Penso que entre elas se encontra a ainda baixa democratização da cidade, que se expressa por assimetrias importantes na prestação dos serviços públicos.
A baixa democratização, infelizmente, não é um discurso. A prática urbana brasileira demonstra a grande escassez de serviços públicos nas áreas pobres. Sabemos (e nos acostumamos) que nelas há carência de esgoto e de abastecimento de água, falta transporte, que o espaço público é mal tratado, manutenção e conservação quase inexistem, que é intermitente ou ausente o serviço público de segurança.
As assimetrias intraurbanas têm seu corolário na baixa exigência. Como a cidade é una, e vivida por todos,os padrões de exigência tornam-se muito tolerantes — e se rebatem pelo conjunto, desqualificando-o. Aceita-se conviver com inacessibilidade nos passeios, obstrução no trânsito, vazamentos nas redes de infraestrutura, buracos sucessivos, manutenção precária,enfim, incivilidades.
Urbanisticamente, há uma consequência pouco estudada: a mobilidade demográfica na cidade. Isto é, por carência dos serviços públicos, degradam-se algumas áreas e os moradores são estimulados a se mudarem para outros bairros. Muitos o fazem para áreas de expansão. Mas, na medida em que as cidades se expandem, mais rarefeitos e mais assimétricos tendem a ser os serviços.
No Rio, há o exemplo da Zona Norte suburbana. Mesmo estando muito bem situada no contexto da metrópole, milhares de seus moradores optam por emigrar à conta das condições insatisfatórias da área, que se eternizam. O enfraquecimento da região é explicado em geral pelo esvaziamento industrial, mas é preciso considerar o papel da degradação dos serviços públicos,em especial o da segurança. É ilusório achar que será possível combater a desigualdade por decurso de prazo — sem políticas específicas.
Veja-se o caso da retomada dos morros da Penha e do Alemão, em uma política específica que se opõe à degradação. Retomado o coração da Zona Norte, tendem a melhorar os serviços públicos, e os bairros da região, hoje deprimidos, poderão ter um rejuvenescimento no seu parque imobiliário e habitacional, retendo seus moradores.
Tínhamo-nos esquecido que a cidade é o lugar da liberdade. “O ar da cidade liberta”, diz o provérbio medieval. E que o papel fundador do Estado é garantir a segurança. Ela garantida, o jogo da democracia poderá redirecionar prioridades.
Assim, o desafio se voltará para os demais serviços públicos urbanos, no objetivo de reduzir assimetrias injustas.
Muitas cidades brasileiras têm feito o esforço de construir infraestruturas, buscando ampliá-las para as áreas mais carentes. No Rio de Janeiro, a urbanização de favelas já tem boa experiência e é meta da cidade, assumida pelo prefeito, de assegurar que até 2020 todos os assentamentos informais estejam plenamente urbanizados. Esse programa, Morar Carioca, se constituiria como o principal legado social dos Jogos de 2016. A tarefa não será fácil, mas é possível.
Contudo, seja no Rio ou nas cidades que buscam equalizar a oferta de infraestrutura, a manutenção dessa nova realidade implicará em custos financeiros permanentes. Em compensação, serão reduzidos os custos sociais e as perdas de oportunidades e de empreendedorismo que o ambiente degradado acarreta. De todo modo, será preciso uma atenção especial para que os investimentos não se percam. É um trabalho que extrapola os governos e precisa envolver os cidadãos.
Quando as sociedades ficaram atentas para as desigualdades sociais, concebeu-se um acompanhamento que pudesse ajudar a percebê-las de modo sintético: o Índice de Desenvolvimento Humano, o IDH. Ele tem sido muito útil nas comparações e verificações dos avanços conseguidos.
Quem sabe devamos pensar em indicadores de atendimento dos serviços públicos urbanos? Algo como um IDC, índice de democratização da cidade, que ajude a monitorar a redução das assimetrias na prestação dos serviços. Que nos informe como eles estão no cotejo entre as cidades, mas também que possam informar sobre os bairros de uma mesma cidade.
Afinal, as cidades do século XXI, motores do desenvolvimento, requerem ser lugares seguros, funcionais,democráticos. No Rio, reduzidas as assimetrias, aflorarão com mais força as virtudes da cidade existente, múltipla,diversa, amigável. E o cidadão poderá fundir o desejo e a realidade em sua prática urbana.

terça-feira, 5 de abril de 2011

De metrô a trem

Lucas Franco
Parece que a Metrô-Rio entendeu errado o movimento defendido aqui no CI, pela transformação dos trens em metrô, potencializando a recuperação de áreas suburbanas e da Zona Norte.
Hoje, junto com esta foto-flagrante, recebi uma reveladora mensagem do atento colega Antônio Augusto Veríssimo:
“Tirei esta foto hoje de manhã em um vagão do metrô. Além de não transformarem o sistema de trem em metrô, parece que já tentam transformar o metrô em trem. Neste caso trocaram as cadeiras duplas por longitudinais, como nos trens da Super Via, liberando mais espaço para passageiros em pé.”
E tudo isso na mesma semana em que a tivemos o aumento em mais de 10% no valor da passagem, passando de R$ 2,80 para R$ 3,10, tornando-se a mais cara do Brasil.
Pelo visto, a proposta do Metrô-Rio é a seguinte: reajuste nas tarifas e aumento no número de passageiros por vagão, logo, crescimento da arrecadação, para oferecer um serviço de pior qualidade.