quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Olímpica esperança

Sérgio Magalhães
Nos enche de esperança o artigo do presidente do COI, que O Globo publica hoje. Jacques Rogge exalta a necessidade da Olimpíada construir um legado que seja uma alavanca para o desenvolvimento local. Destaca o caso de Vancouver, onde “a Vila Olímpica vai transformar uma zona industrial degradada em modelo de habitação sustentável ... abrigando uma comunidade de classes de poder aquisitivo variado”. Em Londres, onde “os Jogos já estão ajudando a revitalizar uma área [central] que sofre de problemas econômicos”. Recomenda o presidente do COI que as cidades-sedes busquem aprender com a experiência das cidades que já abrigaram Olimpíadas.


Diferentemente de Vancouver, no Rio a Vila Olímpica está prevista para uma área rica, será de apartamentos milionários construídos com subsídios públicos e vendidos com subsídios públicos –e com as infraestruturas pagas pelo governo.

Oxalá a opinião de Jacques Rogge possa ajudar a redirecionar o projeto olímpico carioca. Os investimentos públicos precisam contemplar o interesse da cidade inteira –e não de apenas uma parte.

Lembrete: vide post de 26nov09, neste blog.

Veja o artigo do Presidente do COI

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Metrô Rio: 1968-2010

Marat Troina
Em 1968 o projeto METRO RIO definiu o encaminhamento do sistema de metrô existente hoje no Rio de Janeiro e pautou as ampliações e complementações da rede até poucos anos atrás. Agora mudou.
O belo documento, disponível nas bibliotecas públicas do Rio, apresenta mapas interpretativos da Guanabara constando:
1. O tipo do solo;
2. A evolução da malha viária;
3. A localização das agências bancárias;
4. A localização das instituições públicas de ensino;
5. O valor estimado da terra junto às principais ruas da área urbana.
São propostas então duas linhas de metrô, sobrepostas à cidade existente.
LINHA 1
A Linha 1- em vermelho, tem sua extensão a partir do Jardim de Alá chegando à Jacarepaguá pelo norte, atendendo no caminho os bairros do Andaraí, Grajaú, Vila Isabel, Méier e Engenho de Dentro antes de atravessar o maciço. Após, estão planejadas as estações três Rios, Freguesia, Cidade de Deus, Gardênia Azul e Jacarepaguá.
Todos os bairros citados antes do maciço vêm perdendo população. Ou seja, são áreas estruturadas do Rio de Janeiro, com ruas, drenagem, iluminação pública, hospitais públicos, escolas, que ganharão interesse a partir do fácil acesso ao transporte público de massa, aliviando a pressão sobre a Zona Sul formal (prédios) e informal (favelas). O adensamento populacional de Andaraí, Grajaú, Méier e etc. caminham no sentido da sustentabilidade urbana e ambiental. Adensando áreas já urbanizadas é possível preservar as áreas não urbanizadas e seus ecossistemas como nas Vargens e nas lagoas da Barra da Tijuca.
A RA- Jacarepaguá tem área um pouco menor do que a RA- Barra da Tijuca, mas sua população hoje é 3 vezes maior. 
LINHA 2
Já a Linha Dois – em verde, tem proposta sua continuação no sentido Centro com as estações Catumbi/Sambódromo, Praça da Cruz Vermelha, Morro do Santo Antônio, Largo da Carioca (segunda baldeação com a Linha 1) e Castelo com a indicação de continuidade até Niterói. Mais fácil do que imaginar uma estrutura submarina seria uma possibilidade de integração dos modais ferroviário e hidroviário, mantendo o sentido da coisa. De qualquer forma, o projeto aumenta as possibilidades de acesso ao Centro, sem colocar toda a população nas mesmas estações abarrotadas.
Nada contra novas propostas e reflexões. A cidade é mutável e os projetos a serem realizados com o dinheiro público devem ser questionados exaustivamente antes de sua execução. Entretanto, talvez por desinformação, vejo mais coerência no plano METRO RIO de 1968 do que nas conexões Pavuna-Botafogo, executada, e Gávea-Jardim Oceânico, anunciada.

Última Semana

Eduardo Xavier
Com a intenção de comemorar o centenário da abertura dos portos, em 1908, Afonso Penna promoveu o primeiro evento internacional de grande porte, para mostrar ao mundo as qualidades da capital da jovem República Brasileira. Após as reformas realizadas pelo prefeito Pereira Passos a cidade ganhara a identidade “cidade maravilhosa”, e estava pronta para ser apresentada internacionalmente.
Vale a pena destacar a qualidade arquitetônica dos pavilhões durante o evento. Está acontecendo uma exposição sobre o evento de 1908, que foi desenvolvida pela Professora Margareth Pereira da Silva, de terça à domingo de 12h às 19h até o dia 12 de fevereiro no centro Cultural dos Correios, Rua visconde de Itaboraí, 20, Centro.
Vale a pena conferir!

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Qual é o prédio mais bonito do Rio?

Lucas Franco
No último domingo, o jornalista Bernardo de La Peña publicou uma nota na coluna do Ancelmo Gois intitulada: Qual é o prédio mais feio do Rio?, divulgando a seleção de alguns arquitetos cariocas para o tema.
Uma pena. Logo eles, que costumam escrever notas e lançar enquetes que exaltam a beleza e exuberância social, cultural e da natureza carioca preferiram buscar o feio para falar de arquitetura.
Assim, em resposta a nota, em defesa da bela arquitetura, e ainda, em nome da equipe do Cidade Inteira, gostaria de lançar a enquete: Qual é o prédio mais bonito do Rio?
Para iniciar a disputa, mas tentando fugir dos medalhões, dos lugares comuns, e a fim de valorizar a sensibilidade coletiva, decidi escolher um conjunto, o notável e diversificado conjunto arquitetônico da Praia do Flamengo. Do castelinho Art Nouveau e o moderno edifício da Manchete, passando pelas acentuadas esquinas ecléticas formadas pelos parisiense Edifício Guinle e o Toscano Seabra, até as varandinhas Déco do Edifício Biarritz.
Enfim, edifícios da época em que os prédios tinham intenção, você podia identificar a entrada, as fachadas eram trabalhadas, e é claro, não se abria mão do estilo (com duplo sentido, por favor).
E para você, qual é o prédio mais bonito do Rio? Responda, participe. Críticas, sugestões e comentários serão muito bem-vindos.
Leia aqui a nota de BLP e AG.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Casa Solar Flex - Solar Decathlon

Lucas Franco
Esta semana, a equipe do Cidade Inteira recebeu dos colegas José Ripper Kós e Bitiz Afflalo a notícia de que uma equipe de cerca de 60 pessoas de seis universidades públicas brasileiras (UFSC, UFRJ, UFRGS, UFMG, USP e Unicamp) está desenvolvendo um projeto para o concurso Solar Decathlon.
Segundo a descrição da própria: “A Casa Solar Flex foi desenvolvida pela equipe brasileira para o Solar Decathlon Europe, uma competição entre casas que só podem usar o sol como fonte de energia.
(...)
Estamos propondo um modelo de unidade hoteleira para ser adotado por pousadas ou hotéis localizados em áreas com infra-estrutura muito limitada e ecossistemas frágeis, onde as alternativas existentes utilizam geralmente energia de geradores movidos a diesel ou gás e raramente possuem tratamento de esgoto.”
O (A) Cidade Inteira parabeniza o Consórcio BRASIL/Casa Solar Flex pela iniciativa e o engenhoso projeto, e fica torcendo pelo sucesso na competição e no desenvolvimento de uma boa arquitetura sensível às questões ambientais.
Leia aqui o release na íntegra
Acesse os links do projeto:
Consórcio BRASIL / Casa Solar Flex
www.sdbrasil.org

www.sdeurope.org
www.solardecathlon.org
http://casasolarflex.wordpress.com
http://lite.facebook.com/p/Casa-Solar-Flex/189849158086
http://www.flickr.com/photos/consorciobrasil
http://twitter.com/casasolarflex

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Reconstruir a cidade e o país. Primeiro, água.

Sérgio Magalhães
O centro de Porto Príncipe é plano e à beira-mar. Aí se localizam os principais equipamentos públicos, o Palácio Nacional, o estádio, a Catedral. A cidade cresceu em direção ao interior subindo até um platô a 500m de altitude, Pétionville, bairro rico. Um dos lados desse percurso é definido por montanhas, cujas encostas estão ocupadas por famílias pobres, em típicas favelas. O outro lado do percurso se derrama até se constituir em extensa planície, pouco ocupada. Nela se localizam o aeroporto e instalações da Força de Paz. A cidade tem 2,5 milhões de habitantes.
Quando as forças da ONU liberaram das gangues o bairro central de Belair, Rubem César Fernandes, diretor da ONG brasileira Viva-Rio, experiente em áreas de conflito, sugeriu organizar um esforço de requalificação do bairro. Buscou parceiros internacionais e constituímos uma missão de avaliação. Encarreguei-me do plano urbanístico.
Contudo, desde logo percebemos um condicionante: a falta de água potável. A população se abastecia por galões que ia encher em “quiosques”, supridos por caminhões-pipa. O consumo médio diário era inferior a 10 litros/pessoa, enquanto em nossas cidades é de 200 litros/pessoa. A água é escassa também pela dificuldade de captação. Buscamos suprir a carência com a perfuração de poços artezianos, com a colaboração do Batalhão de Engenharia do Exército brasileiro. Mas, as amostras foram desencorajadoras: água salobra e poluída. Investimos então em sistema alternativo, de captação da água da chuva. A experiência em uma igreja demonstrou relativa viabilidade: conseguiu-se uma suplementação para os membros da igreja que lhes permitiu dobrar o consumo. Outros equipamentos sociais, como escolas e hospitais, instalaram sistemas próprios, com bom resultado. O Viva-Rio passou a administrar quiosques do bairro, melhorando o abastecimento para as demais famílias. Não obstante, ainda é muito grande a carência de água potável.
Fizemos com universidade local o censo dos 80 000 moradores de Belair. Conhecemos as condições sanitárias e construtivas dos domicílios. Verificou-se que 58% dos domicílios tem apenas um cômodo e 90% deles não tem rede interna de água. Lembremos que Belair é bairro central, antigo. Seguramente, é melhor que as áreas mais novas, de expansão.

O lixo é outro problema, o mais evidente. Montanhas de lixo obstruíam as vias. O trabalho de uma ONG de artista haitiano que mora no exterior permitiu reduzir o lixo acumulado. Passou a existir recolhimento com alguma regularidade. Técnicos do Rio de Janeiro, com experiência na Comlurb, elaboraram um plano de coleta e destinação do lixo. Está em andamento a construção de um depósito de lixo em condições ambientais adequadas.
A eletricidade era distribuída poucas horas por dia. As ruas são carentes de iluminação pública. Enfim, o quadro de carências é incomensurável. Isto, antes do terremoto.
Agora, Porto Príncipe está semi destruída. Antes, as instituições políticas eram frágeis. Mas os símbolos arquitetônicos eram sólidos: o Palácio Nacional, a Catedral, a sede da ONU. Hoje, estes símbolos estão no chão. É o caso de recuperar as áreas centrais, reconstruir os edifícios simbólicos, referenciais para a população.
Não obstante, não me parece razoável tentar refazer todo o perdido. O tecido modal, em encostas, talvez não seja o caso recompor. É possível que estudo de ocupação das áreas vazias, na planície, possa indicar vantagens importantes, construindo-se simultaneamente redes de infraestrutura e edificações, mitigando o sofrimento dos que tudo perderam. Não será tarefa simples. Nem poderá deixar de ser embasada em um grande censo de humanidade, onde as redes sociais preexistentes possam ser preservadas ao máximo. De certo modo, não seria uma reconstrução, mas um deslocamento.
Na emergência dessas semanas, levar água para o Haiti e distribui-la é a prioridade. Será preciso vencer esta etapa para pensar-se na reconstrução da cidade. Mas ela precisará estar associada à construção de uma economia que possa garantir a sobrevivência de nove milhões de haitianos. Este é o complexo desafio que a reconstrução nos impõe. E também nele o condicionante é a carência de água da maior parte do território haitiano!

Tudo indica que o papel do Brasil se ampliará para além das forças militares, em um esforço cuja complexidade exigirá participação pluridisciplinar, a que os arquitetos brasileiros por certo não se furtarão a contribuir. O IAB-RJ, por delegação do IAB nacional, articula o apoio dos arquitetos, na possibilidade dele vir a ser desejado. O arquiteto Otávio Leonídio, membro do Conselho Superior do IAB, foi designado pelo Conselho Administrativo do IAB-RJ como coordenador desse trabalho.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Samba no Fórum das cidades

Sérgio Magalhães

A arquiteta Ana Luiza Nobre comenta em seu blog a chamada feita pelo site da ONU-Habitat para o Fórum Urbano Mundial, ilustrada com três imagens: uma pintura naïf do Corcovado com a cidade ao fundo; uma foto aérea do Pão de Açúcar; uma foto de um grupo de mulheres sambando, enquanto um passista e um homem, aparentemente autoridade-turista, trocam a experiência do gingado.

ALN protesta como Arquiteta-Urbanista-Carioca-Mulher quando vê a foto “de mulheres de biquini, sambando com um homem engravatado”. Argumenta: “Acho isso gravíssimo, sinceramente. Sobretudo quando se trata de pensar a cidade contemporânea. O fato de que as Nações Unidas não só não se dêem conta disso como contribuam para explorar essa faceta (que pode ser em parte verdadeira, mas é muito grosseira e preconceituosa) é, para mim, um sinal e tanto de que ainda falta muito para fazermos do Rio uma cidade de fato inteira.”

Penso que vale o debate.

Por certo que as imagens escolhidas não são as melhores para ilustrar um fórum urbano a ser realizado no Rio de Janeiro. A pintura naïf não me parece convincente. A foto aérea do Pão de Açúcar é apenas comum. A foto do samba não é boa, embora não me pareça dissonante. Mas é esta que é o foco.

O samba não é apenas a música. É também sua manifestação coreográfica, que tem nos desfiles das escolas de samba uma síntese. O samba tem muitas possibilidades que a foto escolhida empobrece. Não obstante, não me parece uma exploração da nudez feminina. No caso, aliás, o engravatado dança com outro engravatado, este integrante do grupo.

Contudo, gostaria de comentar a escolha da foto como ilustração da cidade do Rio de Janeiro.

Uma imagem do samba é pertinente para ilustrar o Rio? A mim me parece que é. O samba é uma legítima e importantíssima expressão da cultura carioca –e, de certo modo, também é uma representação da cultura brasileira.

O samba é cultura urbana por excelência. A expressão coreográfica, a majestade que adquiriu com as escolas de samba e seus desfiles, o imaginário que construiu, a vitalidade formal e pictórica, tudo constituem como uma das faces mais importantes da cidade. Apenas uma grande cidade poderia construir uma expressão de tanta riqueza.

O samba é uma legítima junção de todas as partes do nosso território. Neste particular, discordo de Ana Luiza Nobre: é a própria cidade inteira.

Mas, quem sabe não possamos aproveitar a oportunidade do Fórum para promovermos –talvez no IAB- um evento/exposição sobre a representação iconográfica do Rio? Que outras imagens poderão dizer sobre a nossa cidade, talvez de modo melhor do que o escolhido pelo Habitat-ONU?

Blog de ALN: www.posto12.blogspot.com

Site do Hatitat: http://www.unhabitat.org/categories.asp?catid=584

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Grande notícia para o Rio

Sérgio Magalhães

Nesta tarde, o prefeito Eduardo Paes anunciou uma revisão no projeto Olímpico de enormes e importantes conseqüências para o futuro da cidade: a transferência, para a zona Portuária, da Vila da Mídia.

“Os membros do COI aceitaram nossa proposta de transferir para esta região as acomodações da Vila de Mídia, o que representa a construção de 5, 6 ou 10 mil unidades habitacionais.”


A importância dessa medida reside em uma revisão estratégica para a cidade metropolitana do Rio de Janeiro, com o fortalecimento do Centro como lugar do desenvolvimento. Após quase trinta anos em que a cidade via a reiteração da Barra da Tijuca como lugar do futuro do Rio, esta revisão no projeto, com a construção de milhares de unidades habitacionais e o centro da mídia, nos diz justamente o contrário: o Rio pode voltar a acreditar na centralidade de seu centro histórico!


Lembremos que o projeto olímpico original só fazia valorizar a Barra em detrimento do conjunto da cidade, com os investimentos públicos concentrados naquele bairro.

Agora, o núcleo jornalístico localizado no vértice dos eixos olímpicos Deodoro-Engenho de Dentro-Maracanã-Centro e Centro-Flamengo-Copacabana-Lagoa, é toda uma nova perspectiva que se abre para os investimentos públicos. A partir de hoje, é possível novamente pensar-se na revitalização da Zona Norte suburbana e de seu sistema de trens, como conseqüência inevitável do reforço da centralidade metropolitana localizada no Porto/Centro.


Fantástica notícia!


Leia a notícia no O Globo.com: MUDANÇAS - Rio fará revisão no projeto para os Jogos Olímpicos de 2016

Olimpíada para servir à cidade. O caso de Londres.

Sérgio Magalhães
Distante apenas 6km do centro de Londres, localizado em área pobre e degradada, os Jogos de 2012 “vão deixar um legado que durará por décadas”.
“Diferentemente do Rio” (...), “em Londres, a maioria dos esportes serão no East End, tradicionalmente carente, com terrenos abandonados e velhas fábricas. Propositalmente, as instalações dos Jogos foram construídas nesta área e planejados de modo que, após o evento, a população local seja beneficiada. Por exemplo: a Vila Olímpica servirá de habitação popular para pessoas pobres.” “A Vila não será hotel de luxo nem bairro de elite”.
Este trecho é parte da entrevista concedida ao jornal O Globo por Peter Ricketts, secretário-geral do Ministério do Exterior britânico, a propósito da Olimpíada de 2012.
E continua: “Uma das razões pelas quais ganhamos a sede dos Jogos é o fato de que nossa proposta não era a de um evento de 14 dias, mas a do desenvolvimento social de uma região degradada da cidade”.
O ministro Orlando Silva, dos Esportes, estará lá em março, para conhecer o trabalho. Outros brasileiros também estão compondo uma agenda de visitas. Oxalá o bom exemplo inglês possa ser aproveitado no Rio, fazendo com que os investimentos públicos sejam melhor direcionados. Nada de investir para alguns e ricos: investir para a cidade inteira! Ainda há tempo de rever, pelo menos em parte, o projeto olímpico carioca.
Não é porque o Brasil seja rico (e a Grã-Bretanha seja pobre) que devamos desperdiçar recursos públicos... Não é porque o Rio esteja todo resolvido (e Londres esteja toda por se resolver) que possamos investir despreocupadamente...
Vale a pena conferir a entrevista: "Jogos para durar 20 anos"

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Terremoto no Haiti

Sérgio Magalhães
A cidade de Porto Príncipe deve estar destruída. Os principais edifícios estão no chão. E são eles que aparecem nas imagens da TV. Mas eles também, em geral, estão localizados nas áreas planas da cidade e são mais bem construídos. Imaginem o que terá acontecido com as áreas residenciais pobres, que são construídas nas encostas, tal como nossas favelas.
Porto Príncipe tem mais de 2,5 milhões de habitantes. A imensa maioria não dispõe de água encanada. O abastecimento é por galões comprados em "quiosques". A disponibilidade é de menos de 10 litros/dia por pessoa (entre nós, calcula-se que a média de consumo seja 200 litros/dia). O lixo é recolhido muito precariamente. A energia elétrica é distribuida 1 ou 2 horas por dia. A ruas, em geral, não tem iluminação pública.
Isto tudo antes do terremoto.
O país está devastado. Sobrevoando, vê-se que o interior não tem cobertura vegetal, salvo pasto. Os córrregos/rios existem com chuva; sem chuva, ficam secos. Águas subterraneas tendem a ser salobra.
Uma reconstrução de Porto Príncipe precisaria contar com uma monumental ajuda internacional, bilhões de dólares, por muitos anos. E não vejo chance de ser bem sucedida se considerar a reconstrução do que foi destruído pelo terremoto: será necessário dar condições do país vir a se sustentar.
Como? São quase 10 milhões de hatianos!

Antes do terremoto, as instituições políticas eram frágeis. Todo o esforço da ONU era no sentido de dar consistência institucional para o país. Os símbolos institucionais eram sólidos: o Palácio Nacional, a Catedral, o Liceu Pétion, o Hotel Montana (sede da ONU). Agora, também estes símbolos estão no chão.

E eu que via as fotos que fiz em cada viagem como medida do avanço alcançado com o programa de recuperação do país! Percebia o avanço e ficava contente; mas via o lento avanço e sobrevinha a dúvida sobre a possibilidade de melhora efetiva. Jamais poderia supor que essas fotos, tão pungentes, reportando tanta pobreza e dificuldade, poderiam vir a ser documentos de um tempo superior!

O que poderemos fazer para nos solidarizarmos com o povo do Haiti? Como ajuda-lo? Há o agora e haverá o logo a seguir.Eu não tenho respostas.
Apenas, uma grande tristeza e o desejo de que possamos elaborar algo que possa ser útil.

Veja as três notas anteriores sobre o Haiti, publicadas em setembro de 2009:
Modernidades, Parece Pequena e Paisagem Bonita

Rotas do crescimento

Lucas Franco
Em um mundo cada vez mais urbano, o crescimento econômico e o desenvolvimento social tornaram-se indissociáveis da qualificação das nossas cidades.
O jornal O Globo de hoje publicou um artigo intitulado Rotas do crescimento, onde o arquiteto e urbanista Sérgio Magalhães analisa essas questões e aponta itens fundamentais para a construção de uma agenda positiva.

Leia aqui o artigo de SFM, Rotas do crescimento.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Metrô: 1 + 1 = ½

Sérgio Magalhães
Esta é uma equação complicada. A Linha 1 do metrô do Rio recebeu a Linha 2 e passaram as duas a operar em conjunto pelos mesmos trilhos, pelas mesmas estações a partir da Central do Brasil até Ipanema.Teoricamente, o intervalo entre um trem e outro cairia pela metade. Assim foi divulgado.

No entanto, o Globo do último domingo informou que ocorre justamente o contrário. Os intervalos não apenas aumentaram como já não é possível prever quando virá o próximo trem...A concessionária diz que está promovendo os ajustes necessários, que tudo ficará muito bem. Que assim seja!

Afinal, inventaram esta superposição, ao invés de prosseguirem com a Linha 2 até a estação Carioca, já construída, à custa de uma prorrogação do prazo de concessão. E contrariando as opiniões dos principais técnicos do setor, que se manifestaram publicamente. Como, aliás, na mesma matéria do Globo informa o engenheiro Fernando Mac Dowell. Quais foram os técnicos ouvidos que se manifestaram a favor?

Leia aqui e aqui as matérias publicadas no Globo

domingo, 10 de janeiro de 2010

Quem irá morar? Mora onde?

Sérgio Magalhães
Em sua última edição, o Jornal dos Economistas publica uma entrevista com o professor e economista Mauro Osório, um dos mais importantes estudiosos da realidade fluminense. Vale a pena ler a íntegra.
MO trata do desenvolvimento do Rio, analisa as possibilidades do setor petrolífero como motor para a expansão econômica do estado, defende que a Olimpíada de 2016 deva melhorar a cidade inteira -e, obviamente, critica a concentração de investimentos na Barra.

Entre as reflexões que a entrevista provoca, está o trecho em que MO comenta as previsões de expansão da cidade: projetos oficiais em andamento propõem levar 100 mil moradores para a Zona Oeste, através do programa Minha Casa, Minha Vida; outras 100 mil pessoas, para a área das Vargens, recém liberada para a ocupação; e, ainda, outras 100 mil para o Centro, revitalizado.
Pergunta o professor Osório: mas se a população da cidade não cresce, de onde sairá tanta gente?

Leia aqui a entrevista de Mauro Osório.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Fórum Urbano Mundial

Iazana Guizzo
O V Fórum Urbano Mundial será realizado no Rio de Janeiro entre 22 e 26 de março, em sua primeira vez na América Latina. O evento visa debater ações para tornar as cidades mais sustentáveis e inclusivas, trabalhando temas como transporte, habitação e saneamento. Estima-se um número de dez mil participantes entre representantes de governo, ongs, universidades e sociedade civil. O tema central do FUM será "Direito à Cidade: Unindo o Urbano Dividido". O encontro terá seis eixos de trabalho, a saber: "Levando adiante o Direito à Cidade"; "Unindo o Urbano Dividido"; "Acesso Igualitário à Moradia"; "Diversidade Cultural nas Cidades"; "Governaça e Participação"; "Urbanização Sustentável e Inclusiva".
Desde 2001 quando foi deliberado em uma assembléia da ONU, o evento acontece bienalmente e é promovido pelo Programa das Nações Unidas para Assentamentos Humanos (UN-Habitat). Segundo a revista AU o fórum terá três sessões plenárias, seis palestras, oito debates, 72 eventos de networking e 24 cursos de treinamento. Além disso, contará com exposição de trabalhos acadêmicos, atividades temáticas e uma exposição cultural e histórica sobre diversas cidades do mundo. Haverá, ainda, exposição em uma área de 20 mil m² envolvendo conceitos, tecnologias, técnicas e pesquisas. Para mais informações:


No Brasil a mobilização dos movimentos, entidades, organizações e redes já começou. O Fórum Nacional de Reforma Urbana convoca desde meados de novembro reuniões para definir a mobilização, atividades e a plataforma dos movimentos sociais para o 5º FUM. Acredito que o IAB poderia compor essa rede e aproveitar esse espaço para colocar as questões de sustentabilidade e habitação que envolve os projetos olímpicos. [segue o e-mail do Fórum para as organizações que se interessarem: forumreformaurbana@fase.org.br ]

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

INICIATIVA BCN-RIO 2016

Lucas Franco
O ano já é novo mas ainda continuo colhendo frutos do passado, como o belo relato que recebi esta manhã, do professor Jorge Piqué. 
"BARCELONA 14/12/2009,
No dia 12 de dezembro de 2009, um numeroso grupo de brasileiros, espanhóis e estrangeiros, que vivem em Barcelona, vestidos com as cores verde e amarelo e levando bandeiras brasileiras, realizou uma grande comemoração pela recente eleição da cidade do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016.
Neste dia, conduzidos por uma batucada de tambores brasileiros do grupo de percursão afro-brasileira KETUBARA e pelo grupo de capoeira VADIAÇÃO, aconteceu uma passeata ao lado do Porto de Barcelona, saindo da escultura urbana de Roy Lichtenstein (criada para os Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992), com direção ao monumento a Cristóvão Colombo (onde a estátua do navegador aponta para as Américas), aos pés das famosas Ramblas, no centro da cidade.
A área do porto de Barcelona é um bom exemplo de como os Jogos Olímpicos podem ser uma grande oportunidade para a cidade inteira que os sedia. Foram exatamente os Jogos de 1992 que permitiram que o porto fosse integralmente remodelado e transformado em uma importante área de lazer, hoteleira e empresarial, a disposição de todos os cidadão e dos numerosos turistas que visitam a cidade a cada ano.
O prefeito carioca Eduardo Paes disse em uma entrevista durante a Conferência de Lausanne 2009 que “quer que no Rio aconteça o mesmo que aconteceu em Barcelona, que a cidade se transforme totalmente e entre para a lista de lugares que se há de visitar no mundo”. Expressou também seu desejo de que, depois dos Jogos Olímpicos, o Rio de Janeiro se converta em uma “cidade moderna, sofisticada, progressista, com glamour, de tendências”, assim como Barcelona.
Depois dessas declarações – e conscientes de que Barcelona é declaradamente um modelo olímpico para o Rio de Janeiro – um grupo de brasileiros residentes na capital condal se organizou para celebrar esta irmandade entre as duas cidades. Assim nasceu a Iniciativa Barcelona – Rio 2016 (www.bcn-rio2016.com), que organizou a comemoração deste sábado por essa conquista inédita para a América do Sul."
Leia aqui o release oficial na íntegra
Veja aqui algumas fotos do evento
Assista aqui e aqui a alguns vídeos do evento

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Ano novo


O ano termina com uma série de acontecimentos que nos enche de esperança, pelas possibilidades de mudanças. Inevitavelmente, porém, necessitamos que no ano de 2010 os responsáveis pelas ações confirmem as nossas expectativas.
O Instituto de Arquitetos do Brasil, departamento do Rio de Janeiro (IAB-RJ), empossou há duas semanas a sua nova diretoria para o biênio 2010-2011. Na ocasião, as propostas de trabalho apresentadas vinham ao encontro dessas iniciativas.
Veja aqui todos os painéis com as propostas da nova diretoria, arquitetura: cidade e metrópole.
Contagiado pelo espírito comum a esta época do ano, tenho expectativas de boas mudanças e acredito que o IAB estará empenhado em discutir a nossa arquitetura, cidade e metrópole e trabalhar pelas melhores soluções.
***
Aos leitores, equipe e colaboradores: obrigado por tudo e um ótimo ano para todos.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Consciência ambiental

Lucas Franco
Estudos apresentados na recente conferência da ONU sobre mudanças climáticas (COP15) apontam que a pecuária responde por metade das emissões brasileiras de gases responsáveis pelo efeito estufa. As principais fontes de emissão de CO2 identificadas foram o desmatamento para formação de pastagem, as queimadas e a fermentação entérica do gado.
Especialistas especulam que uma produção ambientalmente mais correta poderia até duplicar o preço final dos produtos.
No último domingo, em artigo publicado no jornal O GLOBO, o deputado federal e ex-ministro da fazenda Antônio Palocci discorreu sobre o brilhante desenvolvimento do setor, o que chamou de “O salto triplo da Indústria da Carne”. Entretanto, preferiu não mencionar os desafios a serem enfrentados na imprescindível adequação a uma realidade econômica e ambientalmente sustentável.
No O GLOBO de hoje, o consultor da ONU para a Copa de 2014, Pedro Trengrouse, nos chama a atenção para o impacto ambiental do maior evento de futebol do planeta, pleiteando uma “estratégia de manejo ambiental integrada desde já aos processos de preparação.” Em seu artigo, Trengrouse apresenta números e divulga algumas das experiências da última Copa na Alemanha e da próxima, na África do Sul.
Historicamente e especialmente com relação às questões ambientais, inúmeras vezes pecamos por ignorância. Mas agora é diferente, considerar os estudos, mesmo passíveis de contestações, todos os custos conhecidos que envolvem os processos de produção e construir novas ordens de desenvolvimento não é questão de marketing, “selos verdes” ou sensibilidade.
A consciência adquirida é irrefutável, algo que será reconhecido mesmo se fecharmos os olhos.


Leia aqui o artigo de Palocci: “O salto triplo da Indústria da Carne”
Leia aqui o artigo de Trengrouse: "O legado da Copa e o ambiente"

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Razão Social: Entrevista

Lucas Franco
Na última terça-feira, o suplemento Razão Social do jornal O GLOBO publicou uma entrevista com o arquiteto e urbanista Sérgio Magalhães. Em pauta, como tornar o Rio uma cidade sustentável e com maior interação social.




Veja aqui a entrevista de SFM, feita pelo jornalista Emanuel Alencar.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

As cidades e o PIB

Sérgio Magalhães

O IBGE divulgou recentemente sua avaliação sobre o crescimento econômico dos estados brasileiros no período 1995-2007.

A média nacional de crescimento foi de 39,8% no período.

Já o estado do Rio de Janeiro cresceu 25,6%, constituindo-se no estado que teve o menor crescimento entre as 27 unidades federativas. Isto, apesar da participação crescente do petróleo nas contas estaduais, muito acima do crescimento médio nacional.

Não observei muitos comentários a respeito desse relatório.

Não li entrevistas dos economistas que justamente ao longo desse período nos diziam como eram promissoras as contas do estado. Lembre-se que o período perpassa tres governos, todos sempre muito satisfeitos com os grandes investimentos que o estado conseguia captar.

De fato, foram muitos os grandes investimentos, a começar pelo setor petrolífero.

Então, por que o RJ ficou na lanterna entre todos os estados?

Justamente o RJ, que é o estado mais urbano do país. Que tem 94% de sua população vivendo nas cidades.

Proponho que a questão urbana possa ser um dos fatores relevantes a ser investigado. Questão urbana: dificuldades que apresentam nossas cidades para o pleno desempenho da vida social, econômica e política. Dificuldades na mobilidade, na infra-estrutura, na ambiência, na segurança.

Tais dificuldades minam o esforço produtivo dos pequenos empreendedores, não deixam que aflorem para a prosperidade os negócios que começam diminutos e que poderiam alcançar novas escalas.

Os grandes investimentos são importantes, é claro. Mas está nos pequenos, que crescem, uma possibilidade da distribuição do desenvolvimento por todo o tecido social. Sem pequenos, não teremos médios. Não teremos economia pujante.

Veja aqui a apresentação dos dados do IBGE.

Uma pista

Sérgio Magalhães
Os estados mais urbanos do país também cresceram abaixo da média: São Paulo, RJ e Rio Grande do Sul. Todos eles ficaram muito aquém do conjunto nacional: SP=32%; RS=30%; RJ=25,6%.